Portela Desvenda ‘O Mistério do Príncipe do Bará’, Iluminando o Batuque Gaúcho e a História Afro-Brasileira do Sul

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Uma das mais emblemáticas agremiações do carnaval carioca, a Portela, prepara-se para cruzar a Marquês de Sapucaí com um enredo que promete desafiar percepções e lançar luz sobre uma parcela singular da cultura afro-brasileira. Intitulado “O Mistério do Príncipe do Bará — A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”, o desfile da Majestade do Samba narrará as origens e a rica tradição do Batuque, reconhecido como a principal religião de matriz africana praticada no sul do Brasil. Esta escolha audaciosa busca celebrar a diversidade religiosa e a presença negra em regiões muitas vezes não associadas ao imaginário popular da diáspora africana no país.

A Figura Central: Custódio Joaquim de Almeida e o Batuque

O coração do enredo portelense reside na figura do Príncipe do Bará, identificado como Osuanlele Okizi Erupê, que, ao chegar ao Brasil, adotou o nome Custódio Joaquim de Almeida. Nascido no século XIX, no Golfo da Guiné, litoral ocidental da África, Custódio faleceu em Porto Alegre, capital gaúcha, na década de 1930. Sua trajetória é cercada por discussões entre historiadores e antropólogos, que debatem as datas exatas de nascimento e morte, bem como a própria origem nobre do Príncipe, conforme indicado por estudos do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul. Independentemente das nuances acadêmicas, sua relevância para a consolidação e visibilidade do Batuque no Rio Grande do Sul é inquestionável.

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O Batuque, também conhecido como Nação, é parte integrante do vasto e diversificado panteão das religiões afro-brasileiras. Ele se une a manifestações como o Candomblé (Bahia), a Jurema Sagrada (Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte), o Tambor de Mina (Maranhão), a Umbanda (Rio de Janeiro) e o Xangô de Pernambuco, formando um mosaico cultural e espiritual que reflete a resiliência e a riqueza da herança africana no Brasil. A narrativa da Portela, ao focar neste segmento, propõe uma descentralização da historicidade negra, expandindo o foco para além dos eixos tradicionalmente mais explorados.

Rio Grande do Sul: Um Polo Afro-Brasileiro em Evidência

O desfile da Portela transcende o mero espetáculo, ao lançar luz sobre uma realidade demográfica surpreendente: o Rio Grande do Sul apresenta uma proporção maior de praticantes ou devotos de religiões de matriz africana (3,2%) do que estados como Rio de Janeiro (2,6%) ou Bahia (1%), segundo o Censo Populacional do IBGE de 2022. Este dado contesta o senso comum e reforça a importância da abordagem da escola de samba. O carnavalesco André Rodrigues enfatiza que a proposta é “debater a descentralização da historicidade negra do Brasil, focando na formação do Rio Grande do Sul”.

A liderança de Custódio Joaquim de Almeida foi fundamental nesse contexto. Ele é atribuído um papel crucial de mediação entre a população negra e as elites políticas gaúchas, atuando como um líder religioso protetor e depositário de conhecimentos e liturgias ancestrais. A antropóloga Maria Helena Nunes da Silva, em dissertação citada pelo Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul, corrobora essa visão, destacando que Custódio “possibilitou a consolidação dessa religião, deixando-a mais visível”. Sua atuação foi essencial para legitimar, de forma transparente, uma realidade religiosa que existia em Porto Alegre, muitas vezes velada nos bairros mais afastados devido ao intenso fluxo de migração branca.

A Voz do Enredo: Zé Paulo Sierra e a Paixão Portelense

A emoção e a força do samba-enredo sobre o Príncipe Custódio serão amplificadas pela voz de Zé Paulo Sierra, que fará sua estreia como intérprete principal da Portela, realizando um “sonho de infância”. Sua conexão com a escola remonta à sua infância no bairro da Abolição, onde a influência portelense era marcante. Apaixonado por sambas-enredo desde os anos 1980, Sierra defendeu a composição que emergiu vitoriosa de um concurso com 36 candidatos. O samba vencedor é assinado por Valtinho Botafogo, Raphael Gravino, Gabriel Simões, Braga, Cacau Oliveira, Miguel Cunha e Dona Madalena.

Com conhecimento detalhado de cada verso e melodia, Zé Paulo Sierra expressa grande confiança em sua participação no desfile da maior campeã do carnaval carioca, que acontecerá no domingo, 15 de fevereiro. Sua voz carregará não apenas a melodia, mas também a profundidade de uma história que a Portela se propõe a contar, unindo a tradição do samba à celebração de uma herança cultural e religiosa fundamental para a identidade brasileira.

Conclusão: Um Olhar Ampliado sobre o Brasil

O enredo da Portela para o próximo carnaval transcende a estética do desfile, posicionando-se como um ato de resgate histórico e reconhecimento cultural. Ao focar no Batuque e na trajetória do Príncipe do Bará no Rio Grande do Sul, a escola não apenas presta homenagem a uma figura e uma religião muitas vezes invisibilizadas, mas também convida o público a uma reflexão mais profunda sobre a formação multiétnica e multirreligiosa do Brasil. É um convite para reconhecer que a África assenta seus alicerces em diversas geografias do país, recontando a história não oficial e fortalecendo a narrativa de um Brasil plural e complexo.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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