Brilhetes de Anchieta: O Brilho Feminino que Transforma a Tradição dos Bate-Bolas no Rio
As ruas do subúrbio carioca estão prestes a testemunhar um espetáculo de cor e empoderamento com a aguardada saída do grupo Brilhetes de Anchieta. Faltando menos de uma semana para a revelação, nesta sexta-feira (13), a indumentária meticulously elaborada ao longo de seis meses promete deslumbrar, consolidando a presença feminina em uma das mais emblemáticas manifestações do carnaval carioca.
Composto por 38 meninas e mulheres, o coletivo não só celebra a folia, mas também redefine o papel das mulheres nos bate-bolas, mesclando tradição e inovação para criar uma experiência única para foliãs de todas as idades e profissões.
Os Bate-Bolas: Uma Tradição Carioca em Constante Evolução

Os bate-bolas são figuras icônicas do carnaval suburbano do Rio de Janeiro: turmas de mascarados que exibem fantasias ricas em cores e temas, brincando pelas ruas. A bola de borracha, presa a um bastão, é um elemento indispensável que produz o som característico da brincadeira.
Ao longo do tempo, essa expressão artística passou por significativas transformações. De figuras que antes podiam assustar, os bate-bolas evoluíram para se tornar uma das principais atrações visuais e culturais do carnaval, mantendo, contudo, o inconfundível som das bolas batendo no chão. Essa modernização abriu caminho para grupos como as Brilhetes, que não só aderem à estética vibrante, mas também a elevam com um toque contemporâneo.
Brilhetes de Anchieta: Uma Comunidade que Quebra Paradigmas
Quando o portão da garagem do quartel-general das Brilhetes se abrir, ao som de fogos e muito funk, a turma desfilará com sua fantasia de mais um ano, exibindo o resultado de meses de dedicação. O grupo é um mosaico de idades e histórias, unindo crianças de 3 anos a mulheres de 58, com diversas ocupações, como professoras, cuidadoras, técnicas em enfermagem, bombeiras, estudantes e pesquisadoras de instituições culturais.
De Coadjuvantes a Protagonistas da Folia
A produtora cultural Vanessa Amorim fundou as Brilhetes em 2013, inspirada por sua própria vivência. Anteriormente, ela desfilava como bate-bola na Turma do Brilho, criada por seu sogro em 1991 e hoje administrada por seu marido. Vanessa observou que as mulheres frequentemente assumiam o papel de apoio — carregando bandeiras, cuidando das crianças —, enquanto os homens estavam à frente, na posição de brincantes. Essa percepção impulsionou-a, juntamente com outras mulheres, a buscar um espaço de protagonismo na rua.
O grupo transcendeu o mero desfile, tornando-se uma verdadeira “segunda família” e um pilar de apoio para suas integrantes. Alexandra Cunha, de 44 anos, mãe de três filhos, expressa a emoção de participar ativamente da criação das fantasias, um processo que envolve 'gliterar, pregar os lacres nas casacas, o buá'. A conclusão do trabalho é sempre marcada por profunda emoção. Ana Júlia Guimarães, de 17 anos, que desfilará pela primeira vez ao lado da mãe, superou o medo infantil dos bate-bolas para vivenciar a alegria e o prazer de montar as roupas no barracão.
Arte, Criatividade e Engajamento Social
As fantasias das Brilhetes de Anchieta são verdadeiras obras de arte, que a cada ano incorporam inovações como luzes de LED e pinturas especiais. A discrição é palavra de ordem durante os seis meses de preparação, e detalhes como a máscara de 2026, que cobrirá totalmente o rosto, são mantidos em segredo até o último momento. Para a saída, equipes de som de bailes são contratadas, e um bar é montado para ajudar a cobrir os custos.
Além de Anchieta, as Brilhetes e a Turma do Brilho, liderada pelo marido de Vanessa, estendem sua presença a blocos do centro e da zona sul do Rio, além de prestigiarem a saída de outros grupos de bate-bolas em diferentes bairros e cidades.
Homenagem à Força da Voz Feminina: Conceição Evaristo em 2026
Para o carnaval de 2026, as Brilhetes já definiram uma homenagem impactante à escritora mineira Conceição Evaristo, que completa 80 anos em novembro. A escolha é particularmente significativa para as muitas mulheres negras do grupo, que se inspiram em frases da autora, como o lema “eles combinaram de nos matar, mas a gente combinamos de não morrer”, estampado em uma camiseta do kit do grupo.
Vanessa Amorim destaca a importância de celebrar Conceição em vida: “Ela é uma artista que escreve desde sempre e só recentemente foi notada. É professora aposentada, sai de uma comunidade para o Rio, uma mulher negra cuja história precisa ser conhecida e reverenciada”. Esta iniciativa segue a tradição do grupo de abordar temas relevantes, como a homenagem a Marilyn Monroe em 2025 ou à mãe natureza em anos anteriores, sempre com profundidade e originalidade.
O Futuro Brilhante das Brilhetes
As Brilhetes de Anchieta representam mais do que um grupo de bate-bolas; elas são um movimento de empoderamento, um espaço de acolhimento e uma voz ativa na cultura do carnaval carioca. Ao celebrar a criatividade, a união e figuras inspiradoras como Conceição Evaristo, elas continuam a reescrever a história da folia, garantindo que o brilho e a força feminina estejam cada vez mais presentes nas ruas do Rio.