Viradouro Coroa Mestre Ciça em Desfile de Campeãs Marcado pela Inovação e Tradição
O Rio de Janeiro se despede da folia de Momo em grande estilo neste fim de semana, com o tradicional 'Desfile das Campeãs' do Grupo Especial. A celebração, que acontece hoje (sábado, 21 de fevereiro) a partir das 21h no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, promete um espetáculo de pompa e circunstância para cariocas e turistas. O ponto alto da noite será a reapresentação da Unidos do Viradouro, grande campeã do carnaval, que não apenas conquistou o título com pontuação máxima, mas também inovou ao dedicar seu enredo a uma figura viva e fundamental de sua própria agremiação: o lendário Mestre Ciça.
A Grande Final: Campeões na Passarela
A Sapucaí se transformará novamente em palco para as seis escolas de samba mais bem classificadas do Grupo Especial, em uma noite que selará a magia do carnaval de 2024. A ordem de apresentação é aguardada com entusiasmo: a Mangueira, na sexta colocação, abrirá os trabalhos, seguida pela Imperatriz Leopoldinense (5ª), Salgueiro (4ª), Vila Isabel (3ª) e Beija-Flor (2ª). O clímax da festa será a entrada majestosa da Unidos do Viradouro, que garantiu seu quarto campeonato com a impressionante marca de 270 pontos, atingindo nota 10 em todos os quesitos avaliados pelos jurados. Esta performance impecável garante à escola de Niterói um lugar de destaque na história recente do carnaval carioca.

Mestre Ciça: A Homenagem Viva Que Conquistou o Título
A Unidos do Viradouro fez história ao escolher como tema de seu enredo o icônico Moacyr da Silva Pinto, o Mestre Ciça, líder da bateria 'Furacão Vermelho e Branco'. Com o título 'Prá cima, Ciça', a escola de Niterói ousou ao prestar tributo em vida a um de seus mais emblemáticos membros, que rege o coração de sua bateria. A inovação no enredo não apenas cativou o público e os jurados durante o desfile original, ocorrido na última segunda-feira (16), mas também resultou na consagração da escola, solidificando a Viradouro como uma agremiação que valoriza suas raízes e seus expoentes. Para Mestre Ciça, a reapresentação de hoje é, sem dúvida, um dos momentos mais emocionantes de sua longa e vitoriosa trajetória no carnaval.
Uma Vida Dedicada ao Samba: A Trajetória de Ciça
Mestre Ciça, que celebrará 70 anos em julho, possui um currículo que justifica plenamente a homenagem recebida. Com 55 anos dedicados integralmente ao universo do carnaval, sua jornada é um testemunho de paixão e comprometimento. Ao longo de mais de cinco décadas, Ciça trilhou um caminho diversificado e enriquecedor, passando por diferentes escolas e funções, desde passista até ritmista, acumulando um repertório de experiências que o transformou em uma referência. Seu profundo conhecimento e maestria no comando da bateria lhe renderam o reconhecimento de seus pares, sendo carinhosamente chamado de 'mestre dos mestres' por colegas de outras agremiações, evidenciando sua estatura lendária no samba.
O Coração Pulsante da Escola: A Bateria e Seu Mestre
À frente da 'Furacão Vermelho e Branco', Mestre Ciça comanda aquilo que muitos consideram o elemento mais vital de uma escola de samba: a bateria. Segundo o sociólogo Rodrigo Reduzino, pesquisador do carnaval carioca, a bateria transcende o papel de mero acompanhamento musical. “Quem faz o andamento, quem imprime ritmo ao enunciado do samba-enredo, é a bateria”, explica o especialista. Reduzino compara a bateria não apenas ao coração que pulsa no desfile, mas também a uma parte orgânica e indispensável de um corpo complexo, o sistema da escola de samba como um todo. É a melodia e o ritmo ditados por Ciça que guiam todo o cortejo, coordenando a energia e a emoção de milhares de componentes.
A Sabedoria Ancestral por Trás da Batuta
A função de um mestre de bateria, como Ciça, exige mais do que talento musical; requer um conjunto de dons e um aprendizado muito específicos e profundos. Rodrigo Reduzino enfatiza que “precisa ter ciência e saber”, mas ressalta que não se trata de um conhecimento acadêmico. É um “saber intelectual ancestral de lidar com esse conjunto, a ponto de direcionar o melhor ritmo e andamento para esse corpo”. Essa capacidade de incorporar discernimento, ciência, sabedoria e conhecimento ao apito e à batuta não é algo que se adquire da noite para o dia, como salienta o pesquisador. É um saber que não se aprende em colégios, mas é transmitido e internalizado na oralidade, na vivência diária, na experiência compartilhada entre as gerações, uma continuidade ancestral que molda e perpetua a identidade e a marca singular de cada bateria.
A noite do 'Desfile das Campeãs' não é apenas uma repetição do espetáculo, mas uma consagração. Para a Unidos do Viradouro, representa a celebração de um carnaval que soube equilibrar inovação e tradição, culminando na homenagem a Mestre Ciça. O reconhecimento de sua trajetória e a valorização do saber ancestral no samba marcam um capítulo memorável na história da escola e do próprio carnaval. Mestre Ciça, com sua batuta e seu legado, personifica a alma pulsante dessa festa, garantindo que a essência do samba continue a ser transmitida com a mesma força e paixão por muitas gerações.