Comunidades Tradicionais Impulsionam a Recuperação Ambiental da Baía de Guanabara com Inovação Social

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A Baía de Guanabara, um dos ecossistemas mais emblemáticos do Brasil, testemunha uma notável transformação impulsionada pela participação ativa de povos tradicionais. Através de iniciativas que vão desde a remoção de resíduos sólidos até a conscientização ambiental e a recuperação da fauna e flora, o cenário dos manguezais está sendo revitalizado em diversas localidades. Essas ações, que integram conhecimento ancestral e metodologias inovadoras, são cruciais para a sustentabilidade e a resiliência desse vital berçário ecológico.

Guardiões do Mar e a Iniciativa Andadas Ecológicas

À frente dessa mudança está o Projeto Andadas Ecológicas, idealizado pela Organização Não Governamental Guardiões do Mar. Concentrando esforços na região de Magé, especificamente nas comunidades de Suruí e adjacências, no recôncavo da Baía de Guanabara, a iniciativa demonstra resultados concretos. Somente nos primeiros dois meses do ano, janeiro e fevereiro, as atividades de limpeza resultaram na remoção de impressionantes 4,5 toneladas de lixo dos manguezais. Este esforço envolve diretamente pescadores artesanais, catadores de caranguejo, adolescentes e crianças, que são tanto os executores quanto os principais beneficiários da melhoria ambiental.

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Inovação Social e Pagamento por Serviços Ambientais

O Projeto Andadas Ecológicas transcende a mera limpeza. Sua abordagem inovadora inclui o desenvolvimento de um ecoclube e a implementação de um sistema de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), utilizando uma tecnologia social inédita: a Moeda Azul, batizada de Mangal. Durante um período de dois anos e dois meses, esta iniciativa engajará escolas, espaços comunitários e moradores das margens do Rio Suruí, em Magé, na Baixada Fluminense, incentivando a correta gestão dos resíduos pós-consumo. O presidente da Guardiões do Mar, Pedro Belga, enfatiza que o projeto não se limita a coletar lixo, mas busca educar e transformar hábitos, estimulando as comunidades a recolherem e reciclarem seus próprios resíduos.

Nesse sistema, famílias, crianças e jovens são incentivados a trocar os resíduos sólidos coletados pelas moedas Mangal, que posteriormente podem ser utilizadas para adquirir produtos em um bazar comunitário. Essa mecânica inovadora, que gera um retorno financeiro direto pela prestação de um serviço ambiental, remonta à primeira ação da Guardiões do Mar na Baía de Guanabara, em 2001, na Ilha de Itaoca. Segundo Belga, ao valorizar o trabalho de limpeza, as comunidades se tornam verdadeiros agentes ambientais, percebendo o impacto positivo na qualidade do manguezal e na abundância de peixes e caranguejos.

Impacto Multifacetado: Do Meio Ambiente à Economia Local

O Pagamento por Serviços Ambientais demonstra ter um impacto crucial na economia local, especialmente para os catadores de caranguejo. Durante o período de defeso – que no Rio de Janeiro ocorre de 1º de outubro a 30 de novembro, proibindo a coleta e comercialização do caranguejo-uçá – essa “bolsa-auxílio” fornecida pelo serviço ambiental prestado pela comunidade torna-se um suporte financeiro de extrema importância. Além disso, a melhoria ambiental impulsiona outras atividades econômicas. Rafael dos Santos, presidente da Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangues de Magé, destaca que o Turismo de Base Comunitária, uma atividade em crescimento na região, beneficia-se diretamente de um rio e manguezal mais limpos, atraindo visitantes e gerando renda adicional.

Legado e Desafios da Limpeza Ambiental

O Projeto Andadas Ecológicas representa uma extensão da Operação LimpaOca, uma iniciativa de longa data que, desde 2012, vem realizando a limpeza de manguezais na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim, na região Metropolitana do Rio. Sob a coordenação de Rodrigo Gaião, a LimpaOca já acumulou a remoção de mais de 100 toneladas de resíduos. Diferentemente de outras ações, o Andadas Ecológicas inova ao estender seus esforços da foz à nascente do Rio Suruí, cobrindo uma área mais abrangente e sistêmica.

Entre os diversos tipos de resíduos recolhidos, foram encontrados itens variados como sofás, tubos de imagem de televisão, lixo eletrônico, peças inteiras de madeira, como portas, e brinquedos. No entanto, o problema mais persistente e dominante é o plástico, em suas múltiplas formas – garrafas PET, potes plásticos e sacolas plásticas são encontrados em quantidades alarmantes. Gaião ressalta que, dependendo do tempo de permanência no manguezal, a quantidade de fragmentos plásticos é imensa, evidenciando a urgência e a complexidade do desafio da poluição. A origem de muitos desses projetos de limpeza remonta aos anos 2000, após o rompimento de um duto da Petrobras, que trouxe à tona a necessidade crítica de proteção e recuperação desses ecossistemas vulneráveis.

Um Modelo de Sustentabilidade Comunitária

A trajetória das comunidades tradicionais na Baía de Guanabara, especialmente através de projetos como o Andadas Ecológicas, solidifica a premissa de que a restauração ambiental é mais eficaz e duradoura quando ancorada no engajamento e no protagonismo local. Ao integrar a educação ambiental com incentivos econômicos inovadores e a valorização do conhecimento comunitário, essas iniciativas não apenas limpam e recuperam ecossistemas degradados, mas também empoderam pessoas, geram renda e constroem um futuro mais sustentável para a Baía de Guanabara. Esse modelo colaborativo oferece uma esperança tangível e um roteiro valioso para a gestão ambiental em outras regiões costeiras do Brasil.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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