Tenente-Coronel da PM Indiciado por Feminicídio e Fraude em Morte de Soldado
A Polícia Civil de São Paulo anunciou o indiciamento do tenente-coronel da Polícia Militar, Geraldo Leite Rosa Neto, pelos crimes de feminicídio e fraude processual. O inquérito investiga a morte de sua companheira, a soldado Gisele Alves Santana, encontrada sem vida com um disparo na cabeça em 18 de fevereiro. A informação foi confirmada à Agência Brasil pelo advogado da família da vítima, José Miguel Silva Junior, marcando uma reviravolta significativa no caso que inicialmente havia sido reportado como suicídio.
A Contestação da Versão Inicial e os Primeiros Indícios
O incidente ocorreu no apartamento onde o casal residia, quando o tenente-coronel acionou o socorro e as autoridades, apresentando a morte da soldado Gisele como um suicídio. Contudo, a versão foi prontamente contestada pela família da vítima, que desde o início levantou suspeitas sobre as circunstâncias. Diante da persistência dos questionamentos, o registro da ocorrência foi posteriormente alterado para "morte suspeita", abrindo caminho para uma investigação mais aprofundada que culminou no atual indiciamento. Informações prévias revelaram que a ex-mulher do coronel já o havia denunciado, e o ex-marido de Gisele atestou que ela não possuía tendências suicidas, elementos que reforçaram a linha investigativa da família.

Laudos Periciais Apontam Sinais de Violência
A investigação ganhou um novo e crucial patamar com os laudos necroscópicos emitidos pelo Instituto Médico Legal (IML). Esses documentos revelaram lesões contundentes na face e na região cervical do corpo de Gisele, indicando um cenário de agressão física anterior ao disparo fatal. Detalhes como pressão digital e escoriações compatíveis com estigma ungueal – marcas provocadas por unhas – foram explicitamente mencionados nos exames. É importante notar que, embora um laudo mais recente, datado de 7 de março, tenha sido elaborado após a exumação do corpo da vítima, o laudo inicial, de 19 de fevereiro, já sinalizava a presença de lesões na face e no lado direito do pescoço, evidenciando uma consistência nas descobertas periciais desde os primeiros momentos. Segundo o advogado José Miguel Silva Junior, essas marcas, em conjunto com outras provas, foram decisivas para corroborar a tese de feminicídio.
Elementos Suspeitos na Cena do Crime e no Comportamento do Acusado
Além das conclusões dos peritos, a Polícia Civil considerou outros elementos que levantaram fortes suspeitas sobre a versão apresentada pelo tenente-coronel. O comportamento de Geraldo Leite Rosa Neto no momento e após o incidente, bem como as condições da cena da morte, adicionaram peso à tese de crime.
O Intervalo Crítico Antes do Pedido de Socorro
Um ponto de interrogação significativo é o lapso temporal entre o momento do disparo e o acionamento das autoridades. Uma testemunha vizinha relatou ter ouvido um tiro às 7h28 daquele dia, enquanto o tenente-coronel só acionou a polícia às 7h57. Esse intervalo de quase meia hora sem um pedido de socorro imediato é considerado incomum e levantou sérias dúvidas sobre a espontaneidade e a versão inicial do ocorrido.
Posicionamento da Arma e Alteração da Cena
A imagem da vítima com a arma na mão, registrada pelos socorristas, também foi destacada pelo advogado como um indício fora do padrão em casos de suicídio. Adicionalmente, foi revelado que, horas após a ocorrência, três policiais femininas estiveram no apartamento do casal para realizar uma limpeza no local. Este fato, já confirmado em depoimentos, sugere uma possível tentativa de alterar a cena do crime, o que constitui um dos fundamentos para o indiciamento por fraude processual.
Até o momento, a defesa do tenente-coronel não confirmou publicamente o indiciamento, e a Agência Brasil aguarda retorno dos contatos feitos junto à Secretaria de Segurança Pública e ao Ministério Público para obter posicionamentos oficiais. O indiciamento marca uma fase decisiva na busca por justiça para a soldado Gisele Alves Santana, transformando um caso inicialmente tratado como fatalidade em um complexo processo de feminicídio e ocultação de provas.