O Rio de Janeiro sediou a IX Reunião Ministerial da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), culminando na publicação de uma declaração conjunta que reafirma o compromisso dos países da região com a paz, segurança e o desenvolvimento sustentável. Sob a presidência do Brasil, o encontro destacou a visão de um Atlântico Sul livre de conflitos e tensões, estabelecendo diretrizes essenciais para a cooperação regional em um cenário global de crescentes desafios.
União por um Atlântico Sul Livre de Conflitos
A declaração final da Zopacas delineia uma forte posição em defesa da integridade e da soberabilidade da região, situada estrategicamente entre a África e a América do Sul. Os países-membros comprometeram-se a preservar o Atlântico Sul como uma área imune aos flagelos da guerra, às rivalidades entre grandes potências e a disputas geopolíticas extrarregionais. Um ponto central da resolução é a rejeição categórica à presença de armas nucleares e outras armas de destruição em massa, reforçando o caráter pacífico e desmilitarizado da zona. Este posicionamento visa garantir a estabilidade e promover um ambiente seguro para o desenvolvimento de todas as nações costeiras.

Em um gesto diplomático significativo, o documento apela pela retomada das negociações entre Argentina e Reino Unido a respeito das Ilhas Malvinas. A Zopacas enfatiza a necessidade de se alcançar uma solução pacífica, justa e duradoura para a disputa territorial, que tem sido uma pauta histórica para o país sul-americano.
Combate ao Racismo e Reconhecimento da História
A declaração também aborda a importância de confrontar o legado histórico do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, reconhecendo o profundo impacto da rota no Atlântico Sul. O grupo reitera a necessidade de intensificar os esforços no combate ao racismo e na promoção da igualdade racial, ecoando resoluções internacionais que qualificam o tráfico de africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade.
No entanto, a Argentina incluiu um adendo ao documento, distanciando-se de referências a certas iniciativas e documentos que haviam sido rejeitados pelo país em outros fóruns. Embora reafirme seu compromisso na luta contra o racismo, a nação sul-americana manifestou ressalvas quanto à adesão irrestrita a todas as menções, evidenciando nuances nas posições dos membros.
Compromisso Ambiental e Oceânico Robusto
O meio ambiente e o clima emergiram como pilares fundamentais das discussões da Zopacas. Os participantes elogiaram a realização da COP30 em Belém e saudaram o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), incentivando o engajamento de investidores para sua capitalização. A agenda oceânica também ganhou destaque, com a menção de iniciativas como o Plano para Acelerar Soluções Climáticas Baseadas nos Oceanos (Pacote Azul), as adesões ao Desafio “Blue NDC” e a criação da Força-Tarefa “Blue NDC”.
Outro avanço significativo é a celebração da entrada em vigor do Tratado do Alto Mar (BBNJ), que visa a conservação e o uso sustentável da biodiversidade marinha em áreas fora das jurisdições nacionais. Este acordo é visto como um catalisador para uma proteção ambiental marinha mais robusta no Atlântico Sul.
Em uma iniciativa da presidência brasileira, foi lançada a Convenção para a Proteção do Meio Ambiente Marinho no Atlântico Sul, documento ao qual aderiram Cabo Verde, Guiné Equatorial, República do Congo e São Tomé e Príncipe, além do Brasil. Esta convenção estabelece 39 artigos que abrangem desde o direito dos Estados de explorar recursos naturais sob sua soberania até medidas rigorosas para prevenir e controlar danos, proteger ecossistemas frágeis, criar planos de emergência e proibir o despejo de substâncias tóxicas. Inclui ainda a prevenção da poluição de fontes terrestres, a promoção da educação ambiental e a regulação da pesca.
Estratégias de Cooperação para o Desenvolvimento Regional
Um terceiro documento, focado em estratégias de cooperação, foi adotado pela Zopacas para organizar os eixos prioritários de ação entre os países. Embora não tenha caráter vinculante – permitindo a adesão voluntária às diretrizes –, ele serve como um instrumento político para articular esforços colaborativos. O texto estabelece categorias temáticas, incentivando os membros a reportar resultados, desafios e lições aprendidas em ações concluídas.
As três áreas principais de cooperação identificadas são: governança oceânica, defesa e segurança marítimas, e meio ambiente e desenvolvimento sustentável. Os países são estimulados a buscar mecanismos de financiamento, incluindo o apoio de organizações internacionais, parceiros de desenvolvimento e outras fontes voluntárias, para garantir a efetiva implementação das ações acordadas e fortalecer a coesão regional.
A IX Reunião Ministerial da Zopacas reforça o papel do Atlântico Sul como um espaço de diálogo e ação conjunta, onde a busca pela paz e pelo desenvolvimento sustentável se materializa em compromissos concretos. Ao alinhar as agendas política, ambiental e social, os países da região pavimentam o caminho para um futuro de cooperação e prosperidade mútua, consolidando a visão de uma zona de paz em um mundo em constante transformação.