DNA Ambiental: A Nova Fronteira no Mapeamento da Biodiversidade Marinha Baiana

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O sul da Bahia se torna palco de uma iniciativa científica de vanguarda que promete revolucionar o monitoramento da vida marinha. O projeto Genômica da Biodiversidade Brasileira (GBB), uma colaboração entre o Instituto Tecnológico da Vale (ITV) e o Centro Tamar/Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em parceria com as Reservas Extrativistas (RESEXs) de Corumbau e Cassurubá, está utilizando a técnica de DNA Ambiental (eDNA) para mapear a complexa fauna marinha da região.

Esta abordagem moderna, conhecida como eDNA metabarcoding, permite a identificação simultânea de múltiplas espécies a partir de simples amostras de água, marcando um avanço significativo nos métodos de estudo da biodiversidade e na busca por soluções inovadoras para a conservação.

O Poder do DNA Ambiental no Mapeamento de Espécies

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A essência do DNA Ambiental (eDNA) reside na capacidade de detectar a presença de organismos sem a necessidade de capturá-los ou até mesmo avistá-los. Conforme explica Amely Branquinho Martins, coordenadora do GBB pelo ICMBio, todo ser vivo que habita ou transita por um ambiente deixa vestígios de seu material genético – sejam células da pele, escamas, pelos, fezes ou urina. Essas minúsculas "pegadas" genéticas, presentes no solo, na água ou no ar, são coletadas e seu DNA é sequenciado em laboratório.

Ao comparar essas sequências genéticas com bancos de dados de referência, os pesquisadores conseguem identificar com precisão as espécies que estiveram presentes no local da coleta. Esta metodologia representa um salto qualitativo em relação aos métodos tradicionais, oferecendo uma forma não invasiva e altamente eficiente para catalogar a biodiversidade, especialmente para espécies raras ou de difícil observação e captura.

Projeto-Piloto na Bahia: Detalhes da Coleta e Alvos da Pesquisa

No contexto do projeto-piloto em andamento no sul da Bahia, a equipe concentrou esforços nas Reservas Extrativistas de Corumbau e Cassurubá. Amostras de água do mar foram coletadas em 20 pontos distintos na RESEX de Corumbau e em dez pontos que abrangem as porções estuarina e marinha da RESEX de Cassurubá. A seleção estratégica desses locais, conforme detalha Roberto Sforza, analista ambiental do ICMBio, levou em conta áreas de interesse para a pesca e extrativismo local, regiões cruciais para a conservação de espécies ameaçadas e potenciais ocorrências de espécies exóticas invasoras.

As amostras, recolhidas no mês de março, já passaram por fases iniciais de filtragem e conservação. Atualmente, encontram-se no laboratório do ITV em Belém (PA), onde ocorrerá a extração, análise e sequenciamento do material genético para a identificação das espécies.

A pesquisa visa mapear uma vasta gama de animais, incluindo peixes e invertebrados de relevância social e econômica para as comunidades beneficiárias das RESEXs. Há um foco especial em espécies ameaçadas de extinção, como os budiões, e na identificação de alvos primários da pescaria, como peixes recifais, camarões, moluscos e o caranguejo-uçá. Além disso, a iniciativa busca detectar a presença de espécies exóticas invasoras, a exemplo do peixe-leão e do coral sol, informações cruciais para a gestão ambiental e a proteção dos ecossistemas marinhos.

Vantagens e Perspectivas Futuras do eDNA Metabarcoding

A metodologia do DNA Ambiental oferece múltiplos benefícios que a posicionam como uma ferramenta essencial para a conservação e o monitoramento da biodiversidade. Roberto Sforza destaca que a não necessidade de isolar ou capturar os organismos reduz significativamente o impacto nos ecossistemas e otimiza o tempo e o esforço em campo. Essa abordagem permite o registro de espécies raras ou com hábitos elusivos, que seriam dificilmente detectadas por métodos convencionais, superando limitações e lacunas de conhecimento.

Alexandre Aleixo, pesquisador e coordenador do GBB pelo ITV, enfatiza a versatilidade da coleta de eDNA, que pode ser realizada em diversos substratos ambientais – água, solo, ar – e por pessoas com treinamento básico, seguindo protocolos simples. Essa acessibilidade e a simultaneidade na identificação de múltiplas espécies ampliam as possibilidades de monitoramento em grande escala e com menor custo.

O projeto GBB pretende, com esta fase no sul da Bahia, analisar a eficácia do DNA Ambiental em comparação aos métodos tradicionais, visando à sua validação e futura implementação como ferramenta padrão para o monitoramento da biodiversidade em unidades de conservação federais. Esta inovação promete transformar a forma como entendemos e protegemos nossos ecossistemas, oferecendo dados mais completos e em tempo hábil para decisões de conservação mais eficazes.

A integração da genômica ao estudo da biodiversidade marinha no sul da Bahia representa um marco na ciência ambiental brasileira. Ao desvendar a composição da fauna com uma precisão e agilidade sem precedentes, o projeto GBB não apenas aprofunda nosso conhecimento sobre os ecossistemas locais, mas também fornece subsídios cruciais para a proteção de espécies ameaçadas e o manejo de invasoras. A técnica do DNA Ambiental emerge, assim, como uma aliada poderosa na busca por um futuro mais sustentável para a rica biodiversidade brasileira e seus ecossistemas.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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