A Voz dos Escravizados: Historiador Brasileiro Lança Novo Olhar Sobre a Escravidão nos EUA
O jornalista Rafael Cardoso, mestre em história pela Universidade Federal do Estado do Rio (UNIRIO) e repórter da Agência Brasil, lançou recentemente no Rio de Janeiro sua obra "Autobiografias de escravizados: Frederick Douglass, William Grimes e abolicionismo nos Estados Unidos", publicada pela editora Dialética. O livro se destaca por seu ponto de vista inovador, propondo uma inversão na tradicional rota das pesquisas nas ciências sociais e oferecendo uma perspectiva brasileira sobre a complexa história da escravidão norte-americana, a partir da experiência dos próprios indivíduos que a vivenciaram.
Inovação Metodológica e o Olhar Cruzado da História
Fruto de sua dissertação de mestrado, o trabalho de Cardoso adota uma abordagem singular: um pesquisador brasileiro dedicando-se ao estudo da escravidão nos Estados Unidos. Essa iniciativa se contrapõe ao fluxo mais comum, onde acadêmicos norte-americanos, os chamados "brasilianistas", são os que tradicionalmente exploram a história do Brasil. O autor defende a importância de expandir o escopo da pesquisa histórica para além das fronteiras imediatas, argumentando que "a gente não pode limitar o nosso olhar só para o que é mais próximo", enriquecendo assim a compreensão de fenômenos globais com múltiplas lentes culturais e acadêmicas.

A Riqueza das Narrativas em Primeira Pessoa
Um dos pilares da pesquisa de Cardoso reside na notável disponibilidade de relatos escritos por escravizados nos EUA, um material de pesquisa raro e valioso. Centenas dessas autobiografias foram produzidas por indivíduos que conseguiram fugir do sul escravista para o norte abolicionista do país, oferecendo testemunhos diretos de suas vidas e lutas. No Brasil, em contrapartida, a história dessas pessoas foi majoritariamente reconstruída a partir de documentos institucionais, como registros de cartório, certidões de batismo e fontes gerenciais dos locais de exploração, dada a ausência quase completa de narrativas em primeira pessoa, reflexo de uma população escravizada em sua maioria analfabeta.
A única exceção notável no contexto brasileiro, como lembra Rafael Cardoso, é a Biografia de Mahommah Gardo Baquaqua, um homem nascido no atual Benim (1824) que foi escravizado em Olinda (Pernambuco) e depois revendido no Rio de Janeiro, de onde partiu em um navio que o levou a Nova York, alcançando finalmente a liberdade e publicando seu relato.
Desvendando Vidas: Frederick Douglass e William Grimes
O livro de Cardoso mergulha profundamente nas trajetórias de Frederick Douglass (1818-1985) e William Grimes (1784-1865), duas figuras centrais que representam a "segunda ou terceira geração de escravizados nos Estados Unidos". Ambos publicaram mais de uma autobiografia — Grimes em 1825 e 1855; Douglass em 1845 e 1855. A análise comparativa dessas múltiplas edições permite ao historiador observar as transformações sociais nos EUA ao longo de um período de 30 anos, através do prisma das experiências individuais.
Cardoso explora como o ambiente, os laços familiares, as relações sociais e o contexto político moldaram suas vidas e a forma como se posicionavam no mundo. Ele enxerga nessas narrativas a complexa interação entre escolhas pessoais e as limitações impostas por influências estruturais, econômicas e sociais, uma visão alinhada à sua perspectiva de cariz marxista-gramsciano sobre como esses fatores "condicionam nossas escolhas, limitam as nossas escolhas e possibilidades de vida".
História como Ferramenta Crítica para o Jornalismo
Além de sua contribuição acadêmica, Rafael Cardoso enfatiza a sinergia entre o estudo da história e sua atuação como jornalista, apurando e reportando pautas sociais e sobre o meio ambiente para a Agência Brasil. Para ele, a pesquisa histórica funciona como um catalisador para aprimorar a "visão crítica e analítica" da realidade, habilidades consideradas essenciais em seu dia a dia profissional. A imersão em outras realidades e épocas, mesmo distantes geograficamente, oferece uma calibragem valiosa para interpretar o presente e as complexas dinâmicas que moldam a sociedade contemporânea.
Conclusão
"Autobiografias de Escravizados" não é apenas um estudo detalhado sobre as experiências de Frederick Douglass e William Grimes; é um convite à reflexão sobre a historiografia e a importância de dar voz a quem historicamente foi silenciado. Ao optar por um ponto de vista "invertido" e mergulhar nas narrativas em primeira pessoa, Rafael Cardoso oferece uma contribuição significativa para o campo da história transnacional, enriquecendo nossa compreensão da escravidão nos Estados Unidos e, por extensão, das complexidades da condição humana sob opressão.