Há quinze anos, o que começou como uma ousada experimentação sonora sobre rodas nas ruas de Brasília – uma cidade então conhecida por 'não ter carnaval' – floresceu em um dos mais emblemáticos movimentos culturais da capital federal. Inspirado nas vibrantes aparelhagens paraenses, o Bloco Aparelhinho celebra seu 15º aniversário não apenas como um bloco carnavalesco, mas como um catalisador de ressignificação do espaço público e um símbolo da crescente paixão pelo carnaval de rua na cidade. A iniciativa pioneira redefiniu o conceito de folia brasiliense, provando que a alegria popular poderia, sim, vibrar intensamente no coração do Distrito Federal.
A Gênese de um Objeto Sonoro Revolucionário
A ideia inicial partiu de uma visão singular: criar um dispositivo sonoro itinerante que pudesse serpentear por todos os recantos urbanos, desafiando a rigidez arquitetônica de Brasília. O DJ Rafael Ops, um dos fundadores do bloco, expressou esse sentimento: "É puro amor à cidade, às ruas da cidade, às avenidas ocupadas e coloridas; é vontade mesmo de ver o carnaval de rua acontecendo aqui." O primeiro protótipo, um carrinho simples com quatro caixas de som ativas, foi concebido na oficina de marcenaria do Instituto de Artes da Universidade de Brasília (UnB), fruto da colaboração entre Ops, então estudante de artes cênicas, e o arquiteto Gustavo Góes. Desde o princípio, a proposta era ser um "objeto empurrável" capaz de se adaptar a marquises, túneis e calçadas, rompendo com a formalidade dos trios elétricos tradicionais e encontrando uma adesão imediata e apaixonada da população brasiliense.

Evolução e Estrutura: Do Carrinho Artesanal à Mega Produção
Ao longo de uma década e meia, a modesta estrutura inicial do Aparelhinho passou por uma notável transformação. O carrinho original evoluiu para uma plataforma tecnológica e visualmente marcante, ostentando as cores distintivas do bloco – azul e laranja. Essa jornada de aprimoramento viu a aparelhagem assumir diversas formas: de madeira a ferro, adaptando-se até mesmo ao formato online durante a pandemia, e desfilando como charrete, trio elétrico e, mais recentemente, como carreta. Esse crescimento exponencial é acompanhado por um robusto aparato organizacional; atualmente, o bloco conta com o engajamento de cerca de 100 pessoas em sua equipe e recebe apoio financeiro da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, consolidando sua capacidade de entregar um espetáculo cada vez mais grandioso e inovador.
Carnaval Como Ocupação: Debates e Paixões na Capital Federal
O Aparelhinho não é apenas festa; ele encarna um debate vital sobre a apropriação do espaço público. A publicitária Bruna Daibert, frequentadora assídua desde a primeira edição, em 2012, sintetiza a experiência: "É o bloco em que encontro meus amigos, que a gente está em casa, que trago minha filha, que eu faço questão de vir." Ela enfatiza a importância de "formar esse novo público de carnavalescos, pra gente se fixar cada vez mais e o carnaval ocupar, inclusive, o meio das quadras [residenciais]". Esta visão reflete a tensão entre os que defendem a ampla ocupação da cidade pela folia e aqueles que preferem a concentração dos blocos em locais fixos, citando preocupações com barulho e limpeza. O caso do tradicional bloco Galinho de Brasília, que em 2023 cancelou seu desfile na Asa Sul devido a restrições de trajeto em áreas residenciais e hoje se concentra no Setor de Autarquias Sul, ilustra essa disputa. Para Bruna, a resposta é clara: "Acho que a gente tem que ocupar a cidade inteira, é uma vez por ano. Deixa o carnaval acontecer, é tão bonito, tão colorido, tão feliz."
A Batida do Aparelhinho: Uma Sonoridade sem Fronteiras
A identidade sonora do Aparelhinho é tão multifacetada quanto sua história. Arrastando uma multidão de foliões pelo Setor Bancário Sul de Brasília, a celebração de aniversário do bloco foi embalada por um repertório meticulosamente curado pelos DJs fundadores – Pezão, Rafael Ops e Rodrigo Barata –, que contaram também com a participação dos convidados Biba e Mica, além de Emidio e Leroy do Pororoca DJs. Como explicou Rodrigo Barata à Rádio Nacional FM de Brasília, a filosofia musical é "tocar música do mundo". A base eletrônica se entrelaça com remixes criativos de clássicos dos carnavais brasileiros – frevos, axés, sambas-enredo, brega funk, piseiro – e se expande para o rock and roll e diversas vertentes da música eletrônica global, criando uma experiência auditiva vibrante e inclusiva que transcende gêneros e geografias.
A vitalidade do Bloco Aparelhinho em seus 15 anos é um testemunho do poder transformador do carnaval de rua e da criatividade brasiliense. A energia contagiante que emana de seu "objeto empurrável" cativa novos públicos, como o cozinheiro Iago Roberto, que, em seu primeiro carnaval em Brasília após um período no exterior, confessou: "Não escuto [música eletrônica] no dia a dia, mas estou curtindo. Só a energia da galera nesse lugar já está maravilhosa." Sua expectativa, ao retornar com o desejo de vivenciar o carnaval de rua na cidade que ama, foi plenamente atendida. O Aparelhinho não é apenas uma festa anual; é uma instituição cultural que, com sua fusão de música, inovação e paixão, continua a consolidar Brasília como um polo efervescente da folia brasileira, provando que, sim, há muito carnaval na capital.