Bloco ‘Zona do Mangue e Vila Mimosa’ Desafia Estigmas e Promove Inclusão no Carnaval Carioca

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Em meio à efervescência do carnaval carioca, um bloco se destaca não apenas pela música e alegria, mas por sua profunda missão social: o 'Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa'. Desfilando pelas ruas da Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro, o cortejo se propõe a homenagear e integrar as trabalhadoras do sexo, buscando romper com estigmas históricos e promover o respeito. Contudo, apesar do apoio vocal e das canções dedicadas, a plena adesão das mulheres que trabalham na região ainda se mostra um desafio complexo, com muitas preferindo observar a festa à distância, revelando as camadas de preconceito e vulnerabilidade que o evento tenta desconstruir.

O Carnaval da Inclusão e Seus Desafios

Criado em 2018 por moradores locais, o 'Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa' nasceu com o intuito de celebrar a rica memória e a potência cultural de uma área historicamente marginalizada por sua ligação com a prostituição. A presidente do bloco e assistente social, Cleide Almeida, explica que a integração das trabalhadoras do sexo é um processo delicado. Muitas evitam o bloco por receio de serem filmadas ou expostas na mídia, enquanto outras demonstram interesse em participar ativamente, mas são impedidas pela falta de apoio financeiro e de projetos sociais contínuos que poderiam facilitar sua participação.

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Felipe Vasconcellos, um dos líderes da banda 'Enxota que eu vou', que anima o bloco há três anos, complementa que as barreiras socioeconômicas são determinantes. A rotina exaustiva das trabalhadoras, que se estende até tarde, somada às responsabilidades familiares, como o cuidado com os filhos, dificulta o engajamento em atividades paralelas, como cursos de percussão ou outras iniciativas propostas pelo bloco. Essa realidade diária, marcada pela luta pela subsistência, muitas vezes prioriza o trabalho em detrimento do lazer ou da participação em projetos comunitários.

Vozes da Vila Mimosa: Trabalho, Respeito e Resistência

Apesar das dificuldades de integração plena, a presença do bloco é vista como um catalisador positivo pelas próprias trabalhadoras. Laísa, de 21 anos, que atua na Vila Mimosa há cinco, percebe o desfile como uma fonte de alegria e um meio de valorizar a região e as pessoas que ali trabalham. Ela ressalta a importância do bloco em alertar sobre o preconceito persistente, em um contexto onde a necessidade de garantir o sustento é a principal motivação para o trabalho. Para ela, o carnaval é um lembrete de que o local deve ser respeitado como um espaço de trabalho digno.

A história de Estrela, de 58 anos, que preferiu curtir o bloco de longe, ilustra a complexidade da situação e ajuda a desconstruir estereótipos. Técnica de enfermagem, Estrela buscou na Vila Mimosa uma fonte de renda extra após ser vítima de um golpe financeiro que a deixou com uma dívida considerável. Ela conseguiu quitar os débitos e optou por continuar na profissão devido aos ganhos significativos, enfatizando que não 'deve nada à sociedade', tendo criado seus dois filhos. Sua experiência demonstra que as trabalhadoras do sexo são mulheres com histórias de vida diversas, movidas por necessidades e ambições como quaisquer outras, buscando autonomia financeira e a manutenção de seus bens.

Desmistificando Estigmas e Reconstruindo Narrativas

A presidente Cleide Almeida reafirma que um dos principais objetivos do bloco é transformar a percepção negativa sobre a Vila Mimosa e suas trabalhadoras. Ela argumenta que a sociedade precisa conhecer a história dessas mulheres – que são mães, irmãs, filhas e avós – sem julgamentos. O bloco serve como uma plataforma para derrubar tabus, mostrando a humanidade por trás da profissão e incentivando uma visão mais empática. Essa é uma luta por reconhecimento e dignidade, na qual a celebração cultural se entrelaça com a defesa dos direitos humanos.

A administradora Daniela Tarta, que participou do bloco pela primeira vez, exemplifica o impacto dessa iniciativa. Sua motivação era justamente se aproximar e compreender melhor essa população frequentemente marginalizada e desqualificada. Daniela percebeu a Vila Mimosa como um espaço aberto e democrático, habitado por pessoas como em qualquer outro lugar, reforçando a ideia de que o preconceito pode ser combatido através do contato direto e da experiência compartilhada.

Um Legado Histórico de Resiliência

A Vila Mimosa não surgiu do nada; ela é herdeira de uma longa história que remonta à antiga Zona do Mangue, no final do século XIX e início do XX. Naquela época, a região central do Rio de Janeiro, em torno do Canal do Mangue e da atual Avenida Presidente Vargas, era o principal polo de prostituição da cidade. Contudo, as intervenções urbanas e as políticas de 'ordenamento' do centro, ao longo do século XX, forçaram o deslocamento de bares e casas noturnas. Foi assim que a Praça da Bandeira, com seus galpões e terrenos industriais, começou a receber as trabalhadoras, consolidando-se como a Vila Mimosa a partir de meados da década de 1990.

Essa trajetória histórica de deslocamento e resiliência sublinha a persistência de atividades que, embora estigmatizadas, são parte integrante da dinâmica social e econômica da cidade. A Vila Mimosa, portanto, representa não apenas um local de trabalho, mas um símbolo da capacidade de adaptação e organização de uma comunidade em face das transformações urbanas e da pressão social, mantendo viva uma herança cultural e social que o bloco busca reconhecer e valorizar.

O 'Bloco Zona do Mangue e Vila Mimosa' transcende a mera folia, posicionando-se como um movimento vital na luta por dignidade e reconhecimento. Ao celebrar a memória e a potência cultural da região, ele busca desconstruir preconceitos arraigados e promover um diálogo essencial sobre as vidas das trabalhadoras do sexo. A jornada rumo à plena integração e ao respeito é contínua, impulsionada pela resiliência da comunidade e pelo compromisso de quebrar tabus, reafirmando que o carnaval pode ser, acima de tudo, um palco de transformação social e inclusão.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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