Carnaval e Infância: Alerta Crucial para a Proteção de Crianças e Adolescentes
O brilho e a espontaneidade das crianças brincando livremente durante o Carnaval evocam memórias e sorrisos, sendo um dos aspectos mais encantadores da festa. Contudo, por trás da alegria, reside uma realidade preocupante que exige vigilância redobrada. Famílias, sociedade e poder público são conclamados a intensificar a atenção diante do crescente número de violações contra os mais jovens neste período festivo, que se configura como uma fase de maior vulnerabilidade para a infância e a adolescência.
Maurício Cunha, pesquisador em políticas públicas para infância e adolescência e presidente da organização social internacional ChildFund no Brasil, alerta para os riscos latentes, tanto no ambiente físico quanto no digital. Suas recomendações incluem a imperiosa necessidade de as famílias evitarem postar imagens de crianças em redes sociais e o incentivo à sociedade para denunciar ameaças e violências de qualquer natureza.
Aumento da Vulnerabilidade e Cenário Alarmante

O período carnavalesco, com suas grandes aglomerações e eventos de massa, expõe crianças e adolescentes a uma série de perigos específicos. A superexposição, aliada ao aumento da circulação de pessoas, intensifica as chances de ocorrências preocupantes. A gravidade da situação foi tema de debates recentes, como uma audiência pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado Federal, que abordou os múltiplos riscos enfrentados, incluindo adultização e erotização precoce, desaparecimento, trabalho infantil e exploração sexual.
Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, corroboram essa preocupação. O Disque 100 registrou mais de 26 mil casos suspeitos de crimes contra crianças e adolescentes durante o Carnaval de 2024, representando um alarmante aumento de 38% em comparação com o ano anterior. Esse crescimento evidencia a urgência em adotar estratégias preventivas e repressivas mais eficazes.
Os Perigos Ocultos do Ambiente Digital
A internet e as redes sociais amplificam os riscos, criando novas frentes de vulnerabilidade. O pesquisador Maurício Cunha enfatiza que o compartilhamento inadvertido de imagens de crianças e adolescentes por seus próprios pais pode ter consequências sérias, com fotos e vídeos sendo manipulados e expostos em fóruns ou grupos fechados com propósitos maliciosos. O que para as famílias pode parecer um conteúdo inofensivo, em um clique, pode se tornar uma ferramenta para agressores.
Um estudo do ChildFund, intitulado 'Mapeamento dos Fatores de Vulnerabilidade de Adolescentes Brasileiros na Internet', divulgado no ano passado, revelou um panorama desolador. A pesquisa, que envolveu mais de 8 mil adolescentes de 13 a 18 anos de todas as regiões do país, mostrou que impressionantes 54% dos entrevistados já sofreram algum tipo de violência sexual online. Esses números ressaltam a necessidade de uma educação digital mais robusta e de ferramentas de proteção eficazes para os jovens.
Medidas Preventivas e a Responsabilidade Coletiva
A prevenção é a chave para mitigar esses riscos. Para as famílias, a orientação é clara: evitar a superexposição digital, desligar a localização em aplicativos, e abster-se de postar fotos, vídeos e realizar transmissões ao vivo com a imagem de crianças. Além disso, é fundamental que pais e responsáveis utilizem ferramentas de segurança disponíveis, como controles parentais, limitem mensagens de desconhecidos e revisem constantemente as configurações de privacidade dos aplicativos utilizados pelos filhos.
A vigilância parental é crucial, especialmente considerando o tempo que os adolescentes dedicam às redes sociais – uma média de quatro horas diárias, sendo que 30% chegam a passar mais de seis horas. Quanto maior o tempo de exposição, maior a vulnerabilidade a violações. A responsabilidade pela proteção da criança e do adolescente, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), é compartilhada e inadiável, cabendo à família, à comunidade, à sociedade e ao poder público assegurar seus direitos com absoluta prioridade.
Garantir um Carnaval seguro e um ambiente digital protegido para crianças e adolescentes é um dever de todos. A celebração deve ser um momento de alegria e diversão, não de apreensão. A união de esforços na educação, prevenção e denúncia é essencial para que a pureza da infância prevaleça sobre qualquer ameaça.