Coexistir Coabitar: Arte e Experiências Visibilizam o Encarceramento e a Busca por Justiça Social no Rio
O Rio de Janeiro se torna palco de uma profunda reflexão sobre o sistema prisional e suas repercussões sociais com a exposição “Coexistir Coabitar”. A mostra, que reúne obras de pessoas que vivenciaram o cárcere e de seus familiares, transcende a arte como mera estética, utilizando-a como potente ferramenta para desvendar as camadas complexas do encarceramento, as gritantes desigualdades sociais e a urgência de políticas públicas mais humanizadas. Através de linguagens diversas, como pintura, performance e vídeo, os artistas convidam o público a um mergulho em narrativas de resistência, dor e, sobretudo, ressignificação.
Vozes que Rompem Muros: A Gênese da Exposição
Fruto de uma residência artística no Museu da Vida Fiocruz, “Coexistir Coabitar” articula de forma intrínseca arte, saúde e justiça social. A iniciativa teve como propósito central oferecer um espaço de escuta e reconstrução de trajetórias para egressos dos sistemas prisional e socioeducativo, bem como para seus entes queridos. Essa abordagem permite que as obras não surjam de temas predefinidos, mas sim das experiências autênticas e multifacetadas dos próprios participantes, transformando suas vivências em matéria e linguagem artística. O curador Jean Carlos Azuos ressalta que as histórias pessoais são o ponto de partida para essa criação genuína.

O Legado Invisível do Cárcere: A Perspectiva de Wallace Costa
Entre os 27 artistas que compõem a exposição, Wallace Costa, um biomédico de 29 anos residente em Irajá, Zona Norte do Rio, apresenta a impactante obra “Cadeias de Vidro”. Composta por três telas em resina, a criação revisita a complexa jornada de seu pai no sistema prisional e os profundos impactos dessa realidade em sua família. Wallace compartilha a vivência de um filho que acompanhou, desde a adolescência, os desafios de um pai que cumpriu longas penas, incluindo 11 anos de encarceramento e um retorno à prisão em 2019 após um período em regime semiaberto. Ele descreve a difícil tarefa de monitorar a tornozeleira eletrônica e o impacto do uso de drogas em casa, evidenciando as "marcas" que transcendem os muros da prisão e se gravam na psique familiar.
A arte se revela, para Wallace, um canal vital para elaborar memórias e provocar reflexões sobre justiça, saúde mental e a sempre desafiadora ressocialização. Em sua obra, a placa central reproduz um fragmento de jornal que associa seu pai a uma rebelião de 2004, enquanto fragmentos de vidro, adesivos e canudos encapsulados em resina nas laterais simbolizam a fragmentação e anulação da identidade do sujeito encarcerado. Seu objetivo é tanto proporcionar ao observador a capacidade de se ver na pele do outro, quanto de reconhecer um reflexo distorcido de si mesmo, convidando a ir além da notícia superficial para explorar a saúde mental de um egresso e a experiência de seu pai como detento.
Resiliência e Identidade: A Virada Artística de Larissa Rolando
Outra voz potente na exposição é a de Larissa Rolando, uma jovem trans de 20 anos, moradora de Bangu, Zona Oeste. Detida entre fevereiro e maio do ano passado, Larissa descreve a experiência no sistema prisional como uma “virada de chave” em sua vida, um período que, apesar das dificuldades, a impulsionou à reflexão e à criação artística. Mesmo com seus documentos já retificados, a perspectiva de cumprir pena em uma unidade masculina gerou pânico. Contudo, ela relata uma realidade diferente do temor inicial, com homens respeitosos e solícitos, embora as condições de higiene e alimentação fossem precárias.
Essa experiência, marcada pela superação e amadurecimento, levou Larissa a reavaliar amizades e prioridades, impulsionando-a a se expressar através da escultura. Sua obra, um “Coração Empalado” com veias que terminam em CDs, representa a centralidade da música em todos os momentos de sua vida, desde a infância até a transição de gênero, servindo como uma trilha sonora para momentos tristes e felizes. Através dessa peça, Larissa compartilha sua jornada de resiliência, aprofundando o debate sobre a diversidade e as particularidades das experiências no sistema prisional.
Além da Exposição: Diálogo e Ação para a Justiça Social
“Coexistir Coabitar” não se limita à contemplação das obras. Sua programação inclui uma série de atividades educativas, como visitas mediadas, oficinas e rodas de conversa. Esses momentos são cruciais para ampliar o diálogo com o público, desmistificar estigmas e aprofundar a compreensão sobre as complexas questões ligadas ao encarceramento no Brasil. Tais iniciativas se alinham a discussões mais amplas sobre a urgência de políticas que valorizem a ressocialização, contrastando com o atual cenário de desigualdade de investimentos entre segurança e apoio a egressos, a crise climática que expõe presos a ambientes insalubres, e o alarmante déficit de vagas nos presídios, que demandaria bilhões para ser zerado. A exposição atua, portanto, como um catalisador para uma reflexão social mais engajada e empática.
Ao trazer à luz as vozes muitas vezes silenciadas de pessoas egressas e seus familiares, “Coexistir Coabitar” cumpre um papel fundamental na humanização de estatísticas e na provocação de uma sociedade mais consciente e responsável. É um convite à escuta ativa e à compreensão de que as cadeias de vidro, como metaforicamente retratadas na exposição, afetam a todos, ressaltando a interconexão entre o sistema prisional e a saúde de nossa própria comunidade. A entrada é gratuita, permitindo que um amplo público possa participar desta iniciativa essencial para o debate sobre justiça social e dignidade humana.
<b>Serviço:</b>
<b>Exposição:</b> Coexistir Coabitar<br><b>Local:</b> Largo das Artes – Rua Luís de Camões, 02, Centro (1º andar), Rio de Janeiro<br><b>Visitação:</b> Até 25 de abril de 2026<br><b>Horário:</b> Terça a sábado, das 10h às 17h<br><b>Entrada:</b> Gratuita