Lethalidade Policial e a Crise do Controle: Especialista Alerta para a Falha Estratégica na Segurança Pública Brasileira

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O Brasil se vê imerso em um ciclo preocupante de violência, com a letalidade policial atingindo patamares alarmantes. Recentes dados e alertas de organizações internacionais, como a Human Rights Watch, apontam para a ineficácia do uso irrestrito da força como estratégia de segurança. Em meio a esse cenário, a Operação Contenção, no Rio de Janeiro, emergiu como o episódio mais letal da história recente, catalisando um debate urgente sobre as táticas empregadas e o real controle dos governadores sobre suas forças de segurança. Segundo a pesquisadora Carolina Grillo, especialista em conflitos e violência da Universidade Federal Fluminense (UFF), o país persiste em modelos que, além de não apresentarem resultados, revelam um empobrecimento do debate público e uma perigosa autonomia policial.

A Escalada da Violência Policial e o Alerta Internacional

O cenário da segurança pública brasileira é marcado por números preocupantes. Entre janeiro e novembro de 2025, as forças policiais foram responsáveis pela morte de 5.920 pessoas. Dentre os eventos mais trágicos, a Operação Contenção, ocorrida em 28 de outubro no Rio de Janeiro, destacou-se pela extrema letalidade, resultando em 122 mortes, incluindo cinco policiais. Esse patamar de violência policial foi um dos focos de um recente alerta da Human Rights Watch, que reiterou que a estratégia de segurança baseada no uso irrestrito da força letal não apenas falha em reduzir a criminalidade, mas, paradoxalmente, aprofunda a violência e a insegurança no país. A organização também registrou o falecimento de 185 policiais no ano passado, com outros 131 agentes cometendo suicídio, conforme dados do Ministério da Justiça, evidenciando um ambiente de profunda tensão e crise para os próprios profissionais da segurança.

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O Empobrecimento do Debate e a Reprodução de Modelos Falhos

A especialista Carolina Grillo aponta para um preocupante empobrecimento do debate sobre segurança pública no Brasil. A seu ver, há uma insistência na replicação e intensificação de modelos que, por décadas, demonstraram ser ineficazes. Ela observa que estados como Bahia e São Paulo têm copiado o *modus operandi* das polícias do Rio de Janeiro, agravando os problemas de segurança. Essa mimetização não só intensifica a letalidade nas ações policiais, como também contribui para a impunidade dos crimes cometidos por agentes estatais, legitimando uma atuação que já possui um alto grau de autonomia e discricionariedade nas ruas.

A Autonomia Policial e o Desafio ao Controle Governamental

Grillo enfatiza que é ilusório acreditar que qualquer governador detém controle pleno e efetivo sobre suas forças de segurança. As instituições policiais, segundo ela, abrigam grupos internos com considerável poder e gozam de uma autonomia relativa. Além disso, os próprios agentes que atuam nas ruas exercem grande discricionariedade em suas operações. Essa dinâmica é um terreno fértil para a violência, pois a 'promessa de impunidade' age como um estímulo para a atuação policial mais agressiva e, muitas vezes, desproporcional. A falta de controle externo e interno eficaz permite que a letalidade se torne uma ferramenta de poder, ao invés de uma medida de último recurso.

Táticas Eleitorais Versus Ações de Inteligência Eficazes

A professora da UFF critica a preferência por operações espetaculosas e com alto índice de mortes em detrimento de abordagens mais estratégicas e menos visíveis. Enquanto operações de inteligência, como as conduzidas pelo GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) e pela Polícia Federal, demonstraram ser muito mais consistentes no desmantelamento de organizações criminosas, as grandes ações policiais são frequentemente motivadas por retornos eleitorais. Elas criam na população a sensação de que 'algo está sendo feito', gerando um aumento da popularidade dos mandatários que as autorizam, mesmo quando a própria polícia reconhece sua ineficiência a longo prazo no controle territorial armado.

O Papel da Mídia na Construção da Narrativa

A cobertura midiática das operações policiais, especialmente em eventos de grande impacto como a Operação Contenção, também é alvo de análise crítica por Carolina Grillo. Ela aponta para uma tendência de parcialidade na imprensa nacional, onde o discurso oficial do governo do Rio de Janeiro prevaleceu sobre outras interpretações. Enquanto a imprensa internacional se chocou com a magnitude das mortes, parte da mídia brasileira, para Grillo, naturalizou tais ocorrências. Essa naturalização, consciente ou inconscientemente, contribui para reiterar narrativas oficiais que frequentemente justificam a letalidade, como a ideia de combate exclusivo a facções criminosas, desviando o foco da brutalidade e das suas consequências.

O panorama da segurança pública no Brasil, conforme delineado pela pesquisadora Carolina Grillo e corroborado por relatórios internacionais, é um alerta contundente. A persistência em estratégias de força letal, a falta de controle efetivo dos governadores sobre suas polícias, a impunidade e a influência de narrativas midiáticas oficiais perpetuam um ciclo de violência que agrava a insegurança em vez de combatê-la. Urge uma reorientação do debate e das políticas, priorizando a inteligência, a investigação e o respeito aos direitos humanos, em detrimento de abordagens espetaculares e comprovadamente ineficazes. Às vésperas de novas eleições, a forma como a segurança pública será abordada pelos candidatos e pela sociedade civil será determinante para o futuro do país, exigindo uma reflexão profunda e o abandono de modelos que já custaram milhares de vidas.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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