Em uma recente viagem oficial à Índia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfatizou a necessidade de uma abordagem multilateral para a regulação da Inteligência Artificial (IA), visando garantir que essa tecnologia beneficie a sociedade global em vez de ser controlada por poucos. Durante uma entrevista ao programa India Today, o líder brasileiro articulou sua visão para uma governança global robusta da IA, ao mesmo tempo em que abordou outros temas cruciais, como o fortalecimento do bloco BRICS, a desdolarização do comércio internacional e as relações diplomáticas com os Estados Unidos.
Governança Global da Inteligência Artificial: Um Apelo Multilateral
O cerne da mensagem de Lula sobre a IA reside na urgência de uma regulamentação estrita, a ser conduzida por uma instituição multilateral com a envergadura das Nações Unidas. O presidente argumentou que tal estrutura é essencial para proteger os interesses coletivos da humanidade, em contraste com a ideia de que a IA seja controlada por um seleto grupo de grandes proprietários de plataformas. Ele alertou para os riscos potenciais da tecnologia, incluindo danos à privacidade e à vida íntima, além da possibilidade de incitar violência, salientando a importância de proteger crianças, adolescentes e mulheres de usos maliciosos.

Lula reiterou que a ausência de uma supervisão eficaz poderia gerar um cenário desfavorável para a humanidade, mesmo que lucrativo para alguns. Para o presidente, é um dever dos governantes garantir que a sociedade esteja resguardada diante do avanço extraordinário da inteligência artificial, que ele considera cada vez mais fundamental para o progresso humano.
O Potencial da IA a Serviço da Sociedade
Além das preocupações regulatórias, o presidente Lula destacou o vasto potencial positivo da IA quando utilizada de forma ética e socialmente responsável. Ele visualiza a inteligência artificial como uma ferramenta poderosa capaz de elevar os padrões de vida em diversas áreas, como a saúde e a educação, impulsionar o crescimento econômico dos países e aprimorar a qualidade dos serviços públicos e privados. O objetivo final, segundo Lula, é que a IA contribua para a melhoria das condições de trabalho e de vida para toda a humanidade, defendendo que o controle e a direção dessa tecnologia devem estar nas mãos da sociedade civil, e não de interesses corporativos restritos.
Fortalecimento do BRICS e a Voz do Sul Global
No contexto das relações internacionais, Lula celebrou o BRICS como uma das iniciativas mais significativas das últimas três décadas, posicionando-o como um representante vital do Sul Global. Ele traçou um paralelo com outros blocos, como o G7, que defende os interesses de países mais ricos, e o G20, formado em resposta à crise financeira de 2008, para realçar o caráter distintivo e inovador do BRICS. O presidente sublinhou a representatividade demográfica do bloco, que, com a inclusão de Índia e China, já abrange metade da população mundial, superando essa marca com a presença da Indonésia.
A “nova abordagem institucional” promovida pelo BRICS foi enfatizada como um diferencial. Lula defendeu que o bloco tem a capacidade de inovar e desenvolver modelos próprios, sem a necessidade de replicar estruturas do século XX, como o FMI ou o Banco Mundial. Para ele, o BRICS encarna uma esperança de fortalecimento e de tomada de decisões que atendam às necessidades do século XXI e aos avanços da sociedade civil. O bloco, que começou em 2009 com Brasil, Rússia, Índia e China, e incluiu a África do Sul em 2011, expandiu-se em 2024 para acolher Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã.
Desdolarização e Autonomia Comercial
Em consonância com a busca por maior autonomia do Sul Global, Lula reiterou sua defesa pela redução da dependência do dólar estadunidense nas transações comerciais entre os países do BRICS e outros parceiros. Ele argumentou que acordos comerciais bilaterais, como entre Brasil e Índia, poderiam ser realizados utilizando moedas locais, respeitando a soberania e as decisões de cada nação sobre suas formas de comércio. Embora reconheça que a criação de um novo sistema monetário não ocorre de um dia para o outro e enfrenta desafios inerentes às particularidades de cada nação, Lula citou o exemplo de seu primeiro mandato, quando o Brasil estabeleceu com a Argentina a possibilidade de uso de moedas locais para a compra de pequenas empresas. Ele vê esse processo como uma discussão contínua, focada no que é mais vantajoso para cada país envolvido.
Relação com os Estados Unidos: Diálogo e Parcerias Estratégicas
Sobre as relações com os Estados Unidos, o presidente Lula afirmou manter um bom relacionamento com o presidente Donald Trump, indicando abertura para o diálogo sobre questões de interesse mútuo. Entre os tópicos que Lula está disposto a discutir, incluem-se parcerias estratégicas voltadas para a exploração de minerais críticos em território brasileiro. A menção reflete a percepção do presidente brasileiro sobre a importância de manter canais de comunicação abertos com grandes potências, buscando colaborações que possam beneficiar o Brasil.
A agenda do presidente Lula na Índia demonstrou um foco multifacetado na busca por um equilíbrio de poder global e pela promoção de um multilateralismo mais inclusivo. Desde a defesa de uma governança ética e socialmente responsável para a Inteligência Artificial até o fortalecimento de blocos como o BRICS para dar voz ao Sul Global e buscar alternativas econômicas, suas declarações sublinham um compromisso com a cooperação internacional e a autonomia dos países em desenvolvimento. A visão de Lula é de um mundo onde a tecnologia serve à humanidade e as relações comerciais são pautadas pela diversidade e pelo benefício mútuo, refletindo um novo paradigma para o século XXI.