O Samba-Enredo como Enunciado Político: Uma Luta Esquecida pela Democracia no Brasil

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Frequentemente percebido como mero espetáculo ou celebração, o carnaval e, em especial, o samba-enredo, esconde uma dimensão política profunda e muitas vezes subestimada na história do Brasil. O avanço democrático no país, marcado por um percurso sinuoso ao longo do Século XX, teve nos terreiros das escolas de samba uma trincheira de resistência. Enquanto carnavalescos, compositores e membros das comunidades eram alvo de vigilância, censura e até prisão por regimes autoritários, a voz do samba-enredo persistia como um grito pela liberdade. É essa complexa relação entre cultura popular, política e a luta contra o racismo que o sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino explora em sua tese de doutorado, revelando o papel fundamental das escolas de samba na construção da democracia.

A Voz Ignorada: Por Que o Samba é Subestimado na Resistência Política?

Ao se debater a resistência cultural à ditadura militar no Brasil, a Música Popular Brasileira (MPB) frequentemente monopoliza o foco, enquanto a contribuição das escolas de samba nos chamados “anos de chumbo” permanece à margem. Segundo Rodrigo Reduzino, essa lacuna reflete uma sociedade estruturalmente racista, onde há um apagamento sistemático da palavra e da intelectualidade ligadas à população negra. Ele argumenta que o samba-enredo é, em sua essência, um "grande enunciado político", capaz de provocar e articular críticas contundentes ao poder estabelecido. Ao contrário de uma performance efêmera, a construção de um enredo é um processo comunitário que se estende por meses, refletindo anseios e denúncias gestadas no coração da comunidade, conferindo-lhe uma profundidade política raramente reconhecida.

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"Enredos da Liberdade": Revelando a Memória Democrática

A pesquisa de Reduzino, intitulada "Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia", defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mergulha nos enredos das escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro durante a década de 1980. Esse período crucial, que abrange o fim da ditadura militar (1964-1985), a campanha pelas Diretas Já (1984) e a eleição presidencial de Fernando Collor (1989), é analisado para desvendar como o samba-enredo ecoou as transformações políticas e sociais do país. O trabalho acadêmico não se restringe aos círculos universitários; serviu de base para o documentário homônimo, "Enredos da Liberdade", disponível em cinco episódios na plataforma Globoplay, democratizando o acesso a essa parte fundamental da história brasileira. Além de pesquisador, Reduzino atua na Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro e no Departamento Cultural da Mangueira, evidenciando seu profundo engajamento com o universo do samba e da educação.

Repressão e Racismo: O Alvo Contra a Cultura Negra

A repressão estatal contra as escolas de samba representou uma camada adicional de violência direcionada às camadas populares, à população negra e periférica. O sociólogo destaca que, por ser uma expressão intrínseca da cultura negra na sociedade brasileira, o samba carregava um histórico de estigmatização. A violência não se manifestava apenas na censura direta dos enredos, mas também na instrumentalização de códigos como o "Código de Vadiagem" (Art. 59 do Decreto-Lei 3.688/1941) pela polícia. Esse dispositivo legal era frequentemente utilizado para associar pessoas negras envolvidas com música e samba à contravenção, criminalizando sua existência e sua produção cultural e artística. Essa perseguição reflete um resíduo da estrutura racista que historicamente busca silenciar e deslegitimar as manifestações culturais afro-brasileiras, intensificando o impacto da opressão sobre essas comunidades.

Mecenato e Jogo do Bicho: Uma Relação de Interesses na Ditadura

A associação entre escolas de samba e os chamados "banqueiros do bicho" é uma narrativa recorrente, mas sua gênese e complexidade são frequentemente distorcidas. Reduzino ressalta que a figura dos "mecenas" do jogo do bicho com visibilidade pública nas escolas de samba, tal como a conhecemos hoje, emergiu de forma proeminente justamente durante a ditadura militar. Essa conexão não era aleatória; os mesmos bicheiros que investiam no carnaval também mantinham diálogos e relações com generais e autoridades governamentais, inclusive em gabinetes de poder como o Palácio da Guanabara, então sede do governo do Rio de Janeiro. Ao contrário da percepção comum, as escolas de samba não "inventaram" os bicheiros; elas se tornaram parte de um ecossistema complexo onde esses "empresários" da contravenção circulavam livremente entre a elite política, enquanto a culpa por essa associação recaía majoritariamente sobre as agremiações carnavalescas.

Em suma, o trabalho de Rodrigo Reduzino desmistifica a visão simplista do samba-enredo, elevando-o à sua justa posição como um poderoso vetor de comunicação política e resistência. Longe de ser apenas folia, o carnaval carioca foi palco de um intenso embate pela liberdade e pela democracia, onde a arte e a cultura popular, nas mãos de comunidades negras e periféricas, ergueram-se contra a opressão. Reconhecer essa história é fundamental para compreender a riqueza da nossa cultura e a tenacidade de um povo que, mesmo sob vigilância e repressão, jamais deixou de cantar sua luta.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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