Paraíso de Tuiuti Traça Pontes Culturais entre Brasil e Cuba no Carnaval

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O Brasil, com sua rica tapeçaria cultural forjada pela diáspora africana, encontra um surpreendente espelho histórico e espiritual no Caribe: Cuba. Essa nação insular, que compartilha conosco as cicatrizes da escravização e a riqueza inestimável de uma herança afro-descendente vibrante, será o palco central do próximo desfile da Paraíso de Tuiuti. A escola de samba promete uma imersão profunda nas semelhanças e conexões que unem as duas culturas através do enredo 'Lonã Ifá Lukumi', uma jornada que transcende fronteiras geográficas e temporais para celebrar a resiliência e a fé.

Tuiuti Mergulha na Herança Afro-Cubana e Brasileira

A narrativa proposta pela Tuiuti para o carnaval explora como a diáspora de africanos escravizados moldou não apenas a base econômica, mas também a identidade cultural de Brasil e Cuba. Em ambos os países, a força de trabalho cativa foi brutalmente explorada em lavouras como cana-de-açúcar e café, gerando riqueza para os colonizadores. Contudo, essa mesma diáspora legou uma fortuna cultural imensa, reverenciada na culinária, no idioma, na música e, primordialmente, na espiritualidade. O enredo destaca Cuba, uma ilha cuja história e manifestações culturais guardam notáveis paralelos com as nossas, servindo como um elo fascinante para essa reflexão.

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Decifrando o Enredo: Conexões, Pessoas e Fé

O título 'Lonã Ifá Lukumi' é uma chave para compreender a profundidade do tema escolhido. 'Lonã' remete a caminhos, conexões e a comunicação entre o mundo humano e o divino. 'Lukumi', por sua vez, designa os descendentes iorubás que foram escravizados em Cuba, uma comunidade fundamental para a manutenção de suas tradições. O termo 'Ifá' é definido pelo mestre Nei Lopes, autor do livro 'Ifá Lucumí: o resgate da tradição' – obra que inspirou diretamente o enredo, segundo o carnavalesco Jack Vasconcelos – como uma forma de religiosidade que amalgama espiritualidade, racionalidade, filosofia e técnica, servindo de alicerce para inúmeras práticas rituais afro-caribenhas.

A concepção do samba-enredo, interpretado por Pixulé, foi confiada a um time experiente, incluindo o historiador e compositor Luiz Antonio Simas, em parceria com Claudio Russo e Gustavo Clarão. Simas expressou seu entusiasmo pela temática em entrevista, afirmando ter se sentido profundamente motivado pela religiosidade afro-caribenha e suas intrínsecas relações com o Brasil, o que garantiu uma abordagem historicamente embasada e espiritualmente sensível.

A Jornada do Ifá: Do Livro à Passarela

A Paraíso de Tuiuti promete uma experiência visual e narrativa marcante na Marquês de Sapucaí, dividida em seis setores que guiarão o público pela trajetória do Ifá. O primeiro segmento representará a chegada do Ifá ao mundo e a transmissão desse conhecimento primordial aos primeiros babalaôs, os sacerdotes da fé. Em seguida, a escola ilustrará a expansão do Ifá para além dos iorubás, alcançando outras civilizações no continente africano, mostrando sua capacidade de adaptabilidade e universalidade.

A parte central do desfile abordará a dolorosa diáspora africana, impulsionada pelo tráfico negreiro, e a feroz resistência à escravidão em Cuba. Um momento de destaque será a representação da Revolta de Matanzas, ocorrida em 1843 na província cubana homônima. Este levante, liderado pela corajosa Carlota Lucumí, descendente de iorubás que mantiveram viva a espiritualidade do Ifá nas Américas, simboliza a luta por liberdade e a preservação cultural em meio à opressão.

O desfile prosseguirá homenageando Adeshina Remigio Herrera, considerado o primeiro babalaô do Ifá em Cuba, também oriundo da província de Matanzas. Este setor também explorará a interação da espiritualidade dos orixás com as crenças dos povos originários do 'novo mundo', um 'grande encontro' que, segundo o carnavalesco Jack Vasconcelos, culminaria no florescimento do Ifá Lucumí. A seguir, a Tuiuti apresentará elementos essenciais do culto, como locais sagrados, rituais (ebós), oferendas e comidas, traçando paralelos com o candomblé brasileiro, reforçando a ancestralidade comum.

A conclusão da apresentação focará na chegada do Ifá Lucumí ao Brasil, um marco que se deu no início da década de 1990 com a vinda do babalaô cubano Rafael Zamora Díaz (Awó de Orumilá Ogunda Keté) ao Rio de Janeiro. A escola relembrará a trágica morte de Zamora Díaz, assassinado no Cosme Velho, como um epílogo sombrio para a disseminação dessa fé em terras brasileiras, ressaltando a vulnerabilidade e os desafios enfrentados pelos propagadores das tradições afro-diaspóricas.

A Paraíso de Tuiuti e Seu Legado Engajado

Fundada em 1952 por sambistas remanescentes de agremiações extintas do Morro do Tuiuti, em São Cristóvão, zona norte do Rio de Janeiro, a Paraíso de Tuiuti consolidou-se como uma voz importante no carnaval carioca. A escola é conhecida por trazer enredos de forte cunho social e histórico, como demonstrou em 2018, quando alcançou o vice-campeonato do Grupo Especial com o aclamado 'Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?'. Este novo enredo sobre a diáspora afro-cubana reafirma o compromisso da Tuiuti em iluminar aspectos cruciais da história e da cultura afro-brasileira e afro-caribenha, promovendo a reflexão e o reconhecimento de uma herança compartilhada.

Ao desvendar as complexas e belas conexões entre a diáspora africana no Brasil e em Cuba, através da lente do Ifá Lukumi, a Paraíso de Tuiuti não apenas entrega um espetáculo de carnaval, mas também cumpre um papel fundamental na valorização e difusão de uma cultura rica e resiliente. O desfile promete ser um tributo à memória, à resistência e à fé, convidando o público a uma profunda reflexão sobre a formação de identidades e a incessante busca por liberdade e reconhecimento que ecoa em ambos os lados do Atlântico.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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