Vozes da Favela: Pesquisa Revela Demandas Urgentes por Segurança, Moradia e Saúde no Brasil

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As favelas brasileiras abrigam uma população vibrante, composta majoritariamente por jovens negros e trabalhadoras, que, apesar de nutrir projetos concretos para o futuro, enfrenta desafios estruturais persistentes. Desde a educação até a segurança, essas comunidades lidam diariamente com carências que impactam diretamente a qualidade de vida de seus moradores. Esse cenário multifacetado é o ponto central da pesquisa “Sonhos da Favela”, conduzida pelo Data Favela em todas as cinco regiões do Brasil, com um olhar mais aprofundado para as realidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.

O estudo, que ouviu 4.471 moradores de favelas com mais de 18 anos entre os dias 11 e 16 de dezembro de 2025, tem como objetivo principal convidar tanto a sociedade quanto o poder público a reconhecer e confrontar as negligências que há muito afetam essas localidades. A iniciativa busca ir além dos números, oferecendo um panorama detalhado das aspirações e necessidades prementes de milhões de brasileiros.

O Perfil Demográfico e Socioeconômico das Favelas

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A análise sociodemográfica da pesquisa revela um perfil diversificado dos habitantes das favelas. A maioria dos entrevistados, cerca de 58%, está na faixa etária entre 30 e 49 anos, enquanto jovens de 18 a 29 anos representam 25% e pessoas com mais de 50 anos correspondem a 17%. Predomina a presença feminina, com 60% dos participantes sendo mulheres, e a identificação heterossexual, citada por 75% dos entrevistados.

No que tange à identidade racial, um dado relevante aponta que oito em cada dez moradores se identificam como negros (sendo 49% pardos e 33% pretos), enquanto 15% se declaram brancos. A escolaridade mostra que 35% completaram o ensino médio, 11% o ensino superior e 5% possuem pós-graduação. Economicamente, aproximadamente 60% da população estudada vive com até um salário mínimo mensal, e embora três em cada dez tenham trabalho formal, 34% atuam na informalidade e 17% estão desempregados. Ademais, 56% dos entrevistados não recebem nenhum tipo de benefício governamental, sendo o Bolsa Família/Auxílio Brasil o mais citado entre os que recebem (29%).

Aspirações Futuras e a Urgência por Infraestrutura Adequada

Ao projetarem o futuro para 2026, os moradores de favelas expressam aspirações claras e fundamentais para a dignidade e o bem-estar. O desejo por uma casa melhor lidera os planos, sendo apontado por 31% dos entrevistados, seguido pela busca por saúde de qualidade (22%), a entrada dos filhos na universidade (12%) e a segurança alimentar (10%). Essas prioridades sublinham a importância de políticas públicas que atendam às necessidades básicas e permitam o desenvolvimento familiar.

A infraestrutura territorial também é uma preocupação central. As maiores demandas para 2026 incluem saneamento básico (26%), educação (22%), saúde (20%), transporte (13%) e meio ambiente (7%). É alarmante notar que quase 20% da população favelada reside em vias inacessíveis a veículos, e dois em cada três habitantes vivem em ruas desprovidas de árvores, evidenciando a precariedade do planejamento urbano. Além disso, a avaliação das opções de esporte, lazer e cultura é predominantemente negativa ou regular, com 35% considerando-as ruins ou muito ruins e 32% como regulares.

Desafios Interseccionais: Raça e Gênero nas Favelas

A pesquisa também lançou luz sobre os desafios de raça e gênero. Metade dos entrevistados reconhece que a cor da pele impacta diretamente as oportunidades de trabalho, revelando a persistência do racismo estrutural. Para as mulheres, as dificuldades são ainda mais agudas, com sete em cada dez apontando a violência doméstica/feminicídio como o principal problema, seguido pela dificuldade em obter emprego e renda (43%) e a falta de apoio no cuidado com os filhos (37%).

Diante desses cenários, as políticas públicas mais urgentes para as mulheres, segundo as próprias moradoras, são programas de inserção no mercado de trabalho (62%), campanhas educativas contra o machismo (44%), a criação de delegacias e serviços de atendimento 24 horas (43%), e o fortalecimento do cuidado com a saúde feminina (39%). A necessidade de combater o abuso policial, conforme destacado pela Human Rights Watch em contextos relacionados, também se soma ao panorama de insegurança vivenciado por estas comunidades.

Favela: Mais que Estatísticas, um Espaço de Potencialidades

A copresidente do Data Favela, Cléo Santana, ressalta que o mapeamento das experiências e vivências dos moradores de favela transcende a coleta de dados; é um ato de reconhecimento e reparação. “Favela não é só ‘problema’ ou ‘estatística’. É também espaço onde existe inteligência coletiva, cultura, empreendedorismo, inovação, verdadeiras estratégias para prosperar”, afirma Santana, desafiando a narrativa predominante.

A metodologia do Data Favela busca, assim, mudar o centro da narrativa, construindo dados com e a partir das pessoas que vivem a favela diariamente, focando no que elas consideram urgente, possível e necessário. Essa abordagem tem um impacto direto na elaboração de políticas públicas mais eficazes, na forma como empresas se relacionam com esses públicos e, crucialmente, na maneira como a imprensa retrata as periferias, promovendo uma compreensão mais profunda e justa dessas comunidades.

Conclusão: O Caminho para o Futuro

A pesquisa “Sonhos da Favela” oferece um raio-x detalhado das complexas realidades e das genuínas aspirações dos moradores de favelas no Brasil. Ela demonstra que, apesar dos desafios multifacetados em áreas como segurança, moradia, saúde e infraestrutura, essas comunidades são berços de resiliência e planejamento, onde o desejo por dignidade e bem-estar básico é uma força motriz.

Ao dar voz a quem historicamente foi marginalizado, o estudo reforça a urgência de uma atenção integrada e de políticas públicas que reconheçam e invistam no potencial desses territórios. Enfrentar as negligências apontadas e apoiar os projetos de futuro da população favelada não é apenas uma questão de justiça social, mas um passo essencial para o desenvolvimento de um Brasil mais equitativo e próspero.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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