Juiz de Fora: Um Mês Após a Tragédia, Moradores de Três Moinhos Enfrentam Ruínas e IncCerTezas

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Há um mês, em 23 de fevereiro, uma onda de enchentes e deslizamentos de terra devastou a Zona da Mata Mineira, deixando um rastro de destruição e luto, com 73 mortes registradas em Juiz de Fora e Ubá. Passadas quatro semanas, a comunidade Três Moinhos, em Juiz de Fora, ainda se debate contra os impactos brutais. Longe de uma recuperação, muitos de seus habitantes vivem em meio aos escombros, em um cenário de incerteza sobre o futuro, falta de infraestrutura e a busca por dignidade em meio à calamidade.

A Luta Pessoal: A Resiliência de Gilvan Leal entre os Destroços

Gilvan Leal Luzia, um morador de 55 anos do Três Moinhos, personifica a persistência da tragédia. Ele escapou por pouco da morte no dia do deslizamento, lembrando-se de um instante crucial em que a decisão de não entrar em sua casa o salvou de ser soterrado. Hoje, seu lar é um refúgio improvisado na garagem, onde um colchão, um teto feito de destroços e a parte destruída de seu carro servem de testemunho da força da natureza e da fragilidade humana. Nascido e criado na região, Gilvan afirma nunca ter presenciado um evento de tal magnitude.

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A situação de Gilvan é ainda mais delicada devido a problemas de saúde preexistentes; um infarto recente impede-o de realizar esforços físicos. Contudo, a ausência de auxílio e a necessidade de sobreviver o forçam a buscar trabalhos informais, contrariando as recomendações médicas. Com a residência completamente inabitável, ele dorme ao relento, demonstrando um apego profundo ao seu lar e à sua comunidade, enquanto sonha em limpar os escombros para reconstruir, sozinho, um quarto, banheiro e cozinha, na ausência de qualquer plano de reassentamento ou apoio formal.

Comunidade Ilhada: Prejuízos, Educação e o Apelo por Ajuda Urgente

O impacto da catástrofe se estende por toda a comunidade, afetando drasticamente a economia local e a rotina familiar. Kasciany Pozzi Bispo, uma feirante de 36 anos, ilustra essa realidade. Sua principal fonte de renda, a venda de cana-de-açúcar, está paralisada há um mês, com a produção perdida devido à falta de acesso e transporte para veículos. A Kombi da família permanece atolada na lama, simbolizando as dificuldades de locomoção e o isolamento que persistem no bairro.

As consequências sociais também são severas, com a interdição de moradias, incluindo a de Kasciany, e o impacto na educação das crianças. Muitos alunos estão sem acesso às aulas, enfrentando a possibilidade de serem transferidos para escolas distantes. Enquanto busca soluções burocráticas para acessar os auxílios governamentais, Kasciany clama por ações imediatas na comunidade. Ela destaca que a limpeza das ruas tem sido realizada pelos próprios moradores, ressaltando a urgência por maquinário e apoio para que os residentes possam remover os destroços e tentar restaurar um mínimo de dignidade e normalidade.

As Respostas do Poder Público e os Desafios Contínuos

Em resposta à calamidade, a Prefeitura de Juiz de Fora anunciou medidas de apoio. O auxílio calamidade municipal está previsto para ser creditado nas contas do Cadastro Único (CadÚnico) das famílias afetadas na próxima segunda-feira (23). O balanço oficial da prefeitura registra a destruição completa de 1.008 moradias e a demolição de oito imóveis. Para as famílias desabrigadas, que inicialmente foram acolhidas em abrigos temporários, a prefeitura providenciou hospedagem em hotéis da cidade.

No setor educacional, a rede municipal de ensino já retomou as atividades em 101 unidades. No entanto, cinco escolas permanecem sem previsão de retorno às aulas: EM Adenilde Bispo, EM Clotilde Hargreaves, EM Antônio Faustino, EM Santa Catarina Labouré e EM Murilo Mendes. Embora haja esforços para mitigar os efeitos da tragédia, a discrepância entre as ações coordenadas do governo e as necessidades imediatas e a longo prazo dos moradores, como Gilvan e Kasciany, evidencia que o caminho para a plena recuperação ainda é longo e repleto de obstáculos.

O Amanhã Incerto na Reconstrução de Juiz de Fora

Um mês após a fúria das águas e da lama, as cicatrizes da tragédia em Juiz de Fora persistem, mais visíveis nas comunidades como Três Moinhos. As histórias de Gilvan e Kasciany são apenas um recorte da realidade de milhares de pessoas que lutam diariamente para reerguer suas vidas e suas comunidades, em meio à destruição material e ao impacto emocional profundo. A resiliência dos moradores é palpável, mas a capacidade de reconstrução, tanto física quanto social, depende intrinsecamente de um suporte contínuo e eficaz das autoridades, para que a dignidade e a esperança possam, de fato, prevalecer sobre os escombros.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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