Bailarina Brasileira Bethania Nascimento: Reconhecimento Internacional e Luta por Representatividade

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A renomada bailarina brasileira Bethania Nascimento F. Gomes, imortalizada por sua interpretação do papel principal no balé “Pássaro de Fogo” com a companhia Dance Theatre of Harlem (DTH) nos anos 2000, está de volta aos palcos em Nova York. Esta semana, ela é a grande homenageada na reestreia da montagem, que abre a temporada da companhia com sua versão afro-caribenha do clássico russo. O tributo não apenas celebra a trajetória de uma artista excepcional, mas também reafirma seu papel como pioneira e voz ativa na promoção da representatividade no balé mundial.

Uma Trajetória Brilhante e o Legado de um 'Pássaro de Fogo'

Bethania Nascimento figura entre as dez bailarinas que deram vida ao papel do 'Pássaro de Fogo' ao longo dos 40 anos de história da Dance Theatre of Harlem, destacando-se como a única brasileira e estrangeira a assumir o protagonista. Em muitas versões da obra, a pena vermelha da ave mítica simboliza o triunfo da luz. Para Bethania, contudo, não foi a magia, mas uma combinação implacável de esforço e resiliência que a levou a este posto de destaque.

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Sua performance neste icônico balé não só a consagrou internacionalmente, mas também a levou a uma extensa turnê por mais de 20 países, incluindo Austrália, Nova Zelândia e China. Esse reconhecimento global culminou em sua ascensão a primeira bailarina da companhia, um feito que abriu portas e inspirou inúmeras mulheres negras brasileiras a almejar uma carreira no balé clássico internacional.

Voz Ativa Contra a Invisibilidade e o Racismo no Balé Nacional

Enquanto celebra o reconhecimento no palco que a consolidou e onde construiu sua carreira, Bethania Nascimento não se cala diante da realidade da ausência de bailarinas pretas e pardas nos palcos brasileiros. Ela protesta contra a invisibilidade das mulheres negras, questionando a sobrerrepresentação de bailarinas brancas em um país onde a maioria da população é afrodescendente. Para a artista, a falta de oportunidades para talentos negros no Brasil é um ponto crítico que merece atenção e mudança.

A trajetória de Bethania no Brasil foi marcada por episódios de racismo na dança, impedindo-a de seguir uma carreira em seu próprio país em uma época em que a discriminação racial sequer era formalmente criminalizada, só sendo tipificada em 1989 pela Lei Caó. Esse cenário a impulsionou a buscar oportunidades no exterior, onde encontrou espaço para seu talento. Ela vê o reconhecimento internacional não apenas como uma validação pessoal, mas como uma ferramenta para pavimentar caminhos para as futuras gerações de bailarinas negras.

O Legado Pessoal e a Conexão Espiritual com a Dança

Após duas décadas dedicadas à Dance Theatre of Harlem, Bethania atua hoje como treinadora e coreógrafa em diversas companhias internacionais. Além de sua dedicação à dança, ela abraça o legado de sua mãe, a intelectual e autora negra brasileira Maria Beatriz Nascimento. A figura materna foi essencial desde o início de sua jornada no balé, aos 9 anos, quando Bethania se sentia deslocada por ser a única criança negra nas aulas e encontrava conforto em revistas de bailarinas pretas que sua mãe lhe mostrava.

A personagem do 'Pássaro de Fogo' adquiriu um significado ainda mais profundo para Bethania. Ela compartilha que o papel a auxiliou a superar o luto pela morte de sua mãe, vítima de feminicídio em 1995, encontrando na heroína uma figura que 'salva'. Na versão do DTH, o pássaro é uma ave tropical, uma representação que a reconecta à fauna brasileira e reverencia Iansã, sua orixá, simbolizando renascimento e resiliência. Sua experiência no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde foi aluna da bailarina negra Consuelo Rios, mas desistiu devido a agressões racistas, apenas reforça a importância de seu papel atual.

Dance Theatre of Harlem: Um Farol do Balé Afrofuturista

A Dance Theatre of Harlem, companhia que projetou Bethania internacionalmente, foi fundada em 1969 pelos visionários Arthur Mitchell e Karel Shook. A criação da DTH ocorreu em um momento crucial do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, estabelecendo-se como um farol de excelência e representatividade para bailarinos afro-americanos e da diáspora africana.

A montagem afrofuturista do 'Pássaro de Fogo', com coreografia de John Taras, ganha vida através dos cenários e figurinos do multiartista Geoffrey Holder, original de Trinidad e Tobago. Holder infundiu cores vibrantes na narrativa de Igor Stravinsky, conectando o enredo à rica tapeçaria da diáspora africana. Essa versão é considerada icônica, especialmente para comunidades da diáspora africana, incluindo as afro-americanas e brasileiras, pois o território e suas narrativas são elementos centrais, refletindo o impacto da imigração forçada e as desigualdades sociais e raciais que ainda reverberam globalmente.

Impacto e Inspiração para o Futuro

A homenagem a Bethania Nascimento transcende o reconhecimento de uma carreira brilhante; ela simboliza a contínua luta por equidade e visibilidade no universo da dança. Sua jornada, marcada pela excelência artística e pela coragem de denunciar o racismo, inspira gerações e reafirma o poder transformador da arte. Bethania não é apenas um 'pássaro de fogo' no palco, mas um facho de luz que ilumina os desafios e as conquistas de mulheres negras no balé, pavimentando o caminho para um futuro mais inclusivo e representativo nas artes.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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