Cientistas Criam Painel Global para Impulsionar Transição Energética com Base em Evidências

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Um consórcio internacional de cientistas de diversas áreas, incluindo clima, economia e tecnologia, anunciou no último sábado (25) a formação do Painel Científico para a Transição Energética Global (SPGET). A iniciativa foi formalizada durante a Primeira Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, realizada em Santa Marta, Colômbia, marcando um esforço conjunto para acelerar a descarbonização mundial.

Missão e Propósito do Novo Painel Científico

O SPGET foi concebido com a missão primordial de assessorar governos globalmente, fornecendo recomendações robustas e baseadas em evidências para orientar políticas públicas e ações concretas rumo à descarbonização. O painel pretende fortalecer a articulação entre a comunidade acadêmica e as instâncias governamentais, contribuindo para o desenvolvimento de estratégias coordenadas que visem a redução das emissões de gases de efeito estufa. Sua proposta abrange a elaboração de diretrizes técnicas, o acompanhamento de políticas implementadas e a integração com processos internacionais cruciais, como a COP30, que será sediada pelo Brasil.

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A Necessidade de um Guia Científico Unificado

A criação do SPGET responde a uma percepção de que, em anos recentes, a ciência tem tido seu papel como principal orientadora de decisões políticas climáticas e ambientais diminuído. Claudio Angelo, coordenador do Observatório do Clima, relembrou que, historicamente, grandes debates sobre mudanças climáticas, como a Eco-92, eram diretamente influenciados por relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC). Ele lamentou que essa primazia tenha sido perdida, citando o exemplo da COP24, em 2018, onde um relatório fundamental do IPCC foi relegado a uma nota de rodapé.

Para a ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, o painel 'repara uma dívida' ao criar, pela primeira vez, uma entidade focada na superação dos combustíveis fósseis e na discussão dos desafios sociais e econômicos associados a essa transformação. Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático e um dos idealizadores, destacou a complexidade da transição energética, que transcende questões meramente ambientais, englobando também a economia e a justiça social. Ele visualiza o painel como uma 'ponte' capaz de integrar gradualmente países em diferentes estágios de avanço.

Lideranças e o Horizonte de Ação do SPGET

O anúncio do painel contou com a presença de cientistas de renome internacional, como os brasileiros Carlos Nobre, uma autoridade em estudos amazônicos, e Gilberto Jannuzzi, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além do já mencionado Johan Rockström, da Suécia. O SPGET tem como meta reunir, ao longo dos próximos cinco anos, um corpo robusto de evidências científicas que capacitará cidades, regiões, países e coalizões a empreenderem a transição energética de forma informada e eficaz. Este esforço coletivo visa garantir que a mudança para um futuro de baixo carbono seja guiada por um entendimento científico aprofundado.

O Palco da Mudança: Conferência de Santa Marta

O evento que sediou o lançamento do SPGET, a Conferência de Santa Marta, reuniu 57 países, incluindo o Brasil, e aproximadamente 4.200 organizações, englobando um espectro diversificado de atores como governos, setor privado, povos indígenas, academia e sociedade civil. O propósito central da conferência é avançar em medidas concretas para reduzir a dependência global dos combustíveis fósseis, com foco em três eixos estratégicos: a transformação econômica, a readequação da oferta e demanda de energia, e o fortalecimento da cooperação internacional.

Nos primeiros dias do encontro, de 24 a 27 de abril, foram consolidadas propostas que servirão de base para a Cúpula de Líderes, programada para os dias 28 e 29. Espera-se que a conferência resulte em novos mecanismos de cooperação entre as nações e na elaboração de um relatório detalhado com diretrizes para acelerar a transição energética. Van Veldhoven, ministra do Clima e do Crescimento Verde dos Países Baixos e co-líder da iniciativa junto à Colômbia, enfatizou que o grupo presente, representando mais de 50% do PIB global, possui a capacidade coletiva de transformar essas aspirações em ações tangíveis. Ela reforçou que a crescente volatilidade do mercado de combustíveis fósseis torna o momento ideal para essa transição, que além de reduzir o impacto climático, fortalece a independência energética e impulsiona o crescimento econômico verde.

Para Além das COPs: Um Chamado à Ação Decisiva

O ativista socioambiental sul-africano Kumi Naidoo vê a Conferência de Santa Marta e, por extensão, a criação do SPGET, como uma oportunidade crucial para estabelecer medidas concretas que as Conferências das Partes (COPs) da ONU sobre mudanças climáticas, muitas vezes, não conseguem concretizar. Naidoo expressou a urgência de se obter um acordo 'fantástico, que seja justo, ambicioso e vinculativo', contrapondo-se aos 'acordos superficiais, cheios de brechas' que, segundo ele, têm sido o resultado comum das COPs. O novo painel científico, com seu compromisso de fornecer uma base factual inquestionável, tem o potencial de ser a ferramenta necessária para impulsionar a concretização dessas ambições e transformar a transição energética global em uma realidade palpável.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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