Maternidade e Ciência: Desafios e Iniciativas para a Permanência Feminina na Academia Brasileira
Embora o Brasil supere a marca de duas décadas formando mais doutoras do que doutores, uma disparidade persistente assombra o universo acadêmico: as mulheres ainda são minoria em cargos de docência universitária e recebem uma parcela significativamente menor de bolsas de produtividade, um indicativo de reconhecimento e destaque profissional. Esse fenômeno, conhecido como 'efeito tesoura', ilustra o corte progressivo de mulheres à medida que a carreira avança. Nos últimos anos, contudo, o debate ganhou uma camada crucial: o impacto ampliado da maternidade sobre essas trajetórias, uma realidade que a pesquisadora Fernanda Staniscuaski sentiu na própria pele e que a impulsionou a uma mobilização nacional.
O 'Efeito Tesoura' e a Maternidade na Academia
A discrepância entre a formação e a ascensão feminina na ciência brasileira, onde mulheres representam a maioria dos doutores, mas uma minoria entre professores e beneficiárias de bolsas de produtividade, é um problema há muito tempo documentado. Fernanda Staniscuaski, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, vivenciou esse entrave pessoalmente. Sua decisão de ser mãe, já consolidada na carreira, resultou em uma desaceleração profissional que se estendeu além do esperado, transformando-se em um ciclo complexo onde a menor produção leva à redução de oportunidades de financiamento e bolsas para orientandos. Essa pausa inerente à maternidade, defende ela, precisa ser não apenas reconhecida, mas acompanhada de condições adequadas para o retorno.

Parents in Science: Uma Década de Luta por Equidade
Compartilhando suas dificuldades com outras cientistas e mães, Fernanda Staniscuaski percebeu a dimensão coletiva de sua experiência. Em resposta, ela cofundou o movimento Parents in Science em 2016, ao lado de outras seis mães e um pai. A iniciativa, que celebra dez anos este ano com mais de 90 cientistas associados — em sua maioria mulheres —, nasceu com o propósito de debater a parentalidade no meio acadêmico e enfrentar a lacuna de dados oficiais sobre pesquisadores com filhos no Brasil. Essa ausência impede a mensuração precisa do impacto da maternidade na carreira, embora os indicativos do 'efeito tesoura' já demonstrem como o ônus do cuidado com os filhos recai desproporcionalmente sobre as mulheres, mesmo em ambientes acadêmicos. O movimento ressalta que as desigualdades sociais se reproduzem no contexto científico, com as mães carregando a maior parte da responsabilidade do cuidado, apesar de uma gradual, mas ainda insuficiente, mudança cultural na participação paterna.
As Barreiras Numéricas: Descredenciamento e Dificuldade de Reintegração
Um estudo recente do Parents in Science analisou a entrada e permanência na docência de pós-graduação, um processo que exige credenciamento baseado em produtividade acadêmica (publicações, participações em congressos, orientações). A pesquisa, que abrangeu cerca de mil docentes, revelou diferenças marcantes entre pais e mães, especialmente no que tange ao descredenciamento. Entre os pais, 43,7% deixaram o programa voluntariamente, contra 37,5% por baixa produtividade. Para as mães, a situação se inverte drasticamente: apenas 24,6% saíram por iniciativa própria, enquanto **66,1% foram descredenciadas por não atenderem à produção mínima exigida**. Mais preocupante ainda é a dificuldade de reinserção: 38% das mães descredenciadas por perda de produtividade não conseguiram retornar, em contraste com 25% dos pais. Mesmo entre aqueles que saíram voluntariamente, 25% das mães não retornaram, enquanto para os pais, esse índice foi de apenas 7,1%, evidenciando um obstáculo significativo no retorno ao sistema após qualquer interrupção.
Interseccionalidade: Além da Questão de Gênero
A análise da permanência na ciência revela que a questão de gênero é transversal, mas se intensifica quando cruzada com outros marcadores sociais. Fernanda Staniscuaski enfatiza que a influência da raça é notável, com mulheres pretas, pardas e indígenas sendo consistentemente o grupo mais sub-representado na academia. Além disso, mães de filhos com deficiência também enfrentam barreiras adicionais que as afastam ainda mais dos espaços acadêmicos. Essa perspectiva interseccional sublinha a necessidade de políticas e iniciativas que considerem as múltiplas camadas de discriminação e desigualdade que afetam a permanência de diversas mães na ciência.
Desafios Iniciais: O Impacto da Maternidade na Formação Acadêmica
Os obstáculos para mães na academia não se limitam às etapas avançadas da carreira. A assistente social Cristiane Derne, que atualmente cursa mestrado em Serviço Social na PUC-Rio, é um exemplo de como as dificuldades se manifestam desde o início da jornada acadêmica. Ela já era mãe ao ingressar na graduação, enfrentando percalços que demonstram a precocidade do impacto da maternidade nas trajetórias educacionais e profissionais, muito antes de se pensar em credenciamento ou bolsas de produtividade. Sua experiência reforça que o problema é sistêmico e afeta a inclusão e a progressão das mulheres na ciência em todas as suas fases.
As iniciativas para facilitar o acesso e a permanência de mães na ciência são cruciais para reverter o 'efeito tesoura' e construir uma academia mais equitativa e representativa. Desde a coleta de dados mais precisos até a defesa de políticas de apoio e a promoção de uma cultura de corresponsabilidade no cuidado, movimentos como o Parents in Science abrem caminho para que a maternidade não seja um freio, mas sim uma etapa conciliável com o pleno desenvolvimento profissional e científico das mulheres. É fundamental que a sociedade e as instituições acadêmicas reconheçam e atuem sobre essas desigualdades para que o potencial de todas as mentes brilhantes, independentemente de sua condição parental, seja plenamente aproveitado.