“Medea depois do Sol”: Um Mergulho Contemporâneo na Violência de Gênero e Maternidade

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A eterna e enigmática questão sobre o destino de Medeia após seu desaparecimento mitológico serve de ponto de partida para "Medea depois do Sol", a mais recente obra da dramaturga Luciana Lyra. Com estreia marcada para esta sexta-feira, 6 de março, no Sesc Ipiranga, em São Paulo, a peça chega aos palcos em um momento oportuno, às vésperas do Dia Internacional da Mulher. Inspirada na célebre tragédia grega de Eurípedes, a montagem propõe uma profunda reflexão sobre a violência de gênero, a complexidade da maternidade e a exploração desenfreada da natureza, temas que reverberam intensamente no Brasil e na América Latina.

A Reinvenção de um Ícone da Tragédia Grega

Para além da narrativa clássica, "Medea depois do Sol" explora as camadas mais profundas da personagem-título, questionando seu percurso após os eventos que a imortalizaram. Luciana Lyra não apenas assina o texto, mas também encarna Medeia no palco, dividindo a cena com a atriz-musicista Lisi Andrade. A proposta da peça é desvendar Medeia não só como um símbolo da maternidade levada ao limite, mas também como uma figura resiliente, sobrevivente de um trauma avassalador, conectando sua jornada à experiência feminina contemporânea.

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Diálogo Entre Mulher e Natureza: O Ecofeminismo em Cena

A encenação estabelece uma conexão intrínseca entre o feminino e a natureza, adotando uma perspectiva ecofeminista. A dramaturga Luciana Lyra elucida que a peça busca discutir a paridade entre o corpo da mulher e o corpo da Terra, ambos constantemente subjugados e violados. Essa analogia, segundo Lyra, espelha a invasão de espaços e corpos femininos com a crescente destruição ambiental, propondo uma crítica contundente à exploração em suas diversas manifestações e promovendo uma visão de interdependência e respeito.

Uma Equipe Predominantemente Feminina Assina a Montagem

A singularidade de "Medea depois do Sol" se estende à sua ficha técnica, caracterizada por uma equipe criativa quase inteiramente feminina. A direção da obra é conduzida por Ana Cecília Costa e Kátia Daher, enquanto a trilha sonora original é uma colaboração entre Alessandra Leão e a própria Luciana Lyra. A equipe se completa com talentos como Leusa Araujo no dramaturgismo, Renata Camargo na direção de gesto e movimento, Carol Badra no figurino e Camila Jordão na cenografia e iluminação, com a direção de produção a cargo de Franz Magnum. Este esforço coletivo reforça a voz feminina na abordagem de temas tão cruciais.

A Lente de "Medea depois do Sol" sobre o Mito Original

A tragédia grega de Eurípedes narra a história de Medeia, amante de Jasão, que, após ser rejeitada e desprezada, comete um ato extremo ao tirar a vida dos próprios filhos, buscando infligir a Jasão a mesma dor que sentiu. Contudo, Luciana Lyra oferece uma nova leitura para esse mito, contextualizando-o como uma narrativa da transição de um mundo matriarcal para um patriarcal. Para Lyra, o ato de Medeia, embora difícil, pode ser interpretado como um desejo de proteger seus filhos de um destino de poder centrado, tal qual o de Jasão. Um elemento distintivo da Medeia clássica, e que intrigou Lyra, é sua sobrevivência e fuga com a ajuda do deus-sol Hélios, seu avô, um desfecho incomum para as figuras femininas nas tragédias gregas que geralmente culminam em morte.

Jornada de Pesquisa: Vozes Femininas da América Latina

A curiosidade sobre o destino final de Medeia foi o catalisador para a exaustiva pesquisa de Luciana Lyra na concepção da peça. Durante o processo, a dramaturga conduziu workshops em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, onde questionava "Para onde foi Medeia depois de fugir com o avô?". As respostas, predominantemente de mulheres, revelaram uma série de experiências pessoais marcadas pela opressão, especialmente no que tange à maternidade. Temas como a responsabilidade feminina no cuidado dos filhos, a maternidade compulsória, a reflexão sobre a necessidade de ser mãe, a maternagem (cuidado com outros além da família nuclear) e a própria negação da maternidade emergiram desses encontros.

Lyra expandiu sua investigação para além das capitais, buscando relatos autênticos em comunidades como Tejucupapo, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, local conhecido pela bravura de suas mulheres guerreiras desde 1646. Ali, Lyra ouviu o pungente testemunho de uma mulher que, em face de uma vida de extrema precariedade, matou sete de seus dezessete filhos para que não vivessem naquela estrutura de sofrimento. A pesquisa de campo se estendeu ao Equador e incluiu diálogos com mulheres em Montevidéu, Uruguai, que também refletiam sobre o mito de Medeia. A dramaturga observou uma notável convergência nas narrativas femininas do Brasil e de outras nações latino-americanas, atribuindo essa proximidade à constante opressão que o continente enfrenta na defesa de seus recursos naturais e territórios, um elo que transcende fronteiras.

Informações e Ingressos

O espetáculo "Medea depois do Sol" estará em cartaz no Sesc Ipiranga, situado na Rua Bom Pastor, 822, no bairro do Ipiranga, em São Paulo, de 6 a 29 de março. As apresentações ocorrem às sextas-feiras, às 21h30, e aos sábados e domingos, às 18h30. Com duração de 60 minutos, os ingressos variam de R$ 15 a R$ 50, proporcionando acesso a uma experiência teatral que promete instigar reflexões profundas sobre os temas abordados.

Ao revisitar um dos mais potentes mitos da antiguidade, "Medea depois do Sol" transcende o tempo, oferecendo ao público contemporâneo uma oportunidade singular de confrontar temas universais de violência, resiliência e a intrínseca relação entre a mulher e o meio ambiente. A peça de Luciana Lyra não é apenas um espetáculo teatral, mas um convite à reflexão e ao diálogo sobre as urgências sociais e existenciais que persistem em nossa realidade, reforçando a importância da arte como espelho e agente de transformação social.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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