Milton Santos, 100 anos: O Legado Perene do Geógrafo que Desvendou as Desigualdades

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Neste 3 de maio, a comunidade acadêmica e a sociedade celebram o centenário de nascimento de Milton Santos, um dos mais influentes geógrafos da história, cujas teorias sobre as dinâmicas urbanas e as desigualdades sociais continuam a oferecer lentes cruciais para a compreensão do mundo contemporâneo. Sua obra transcendeu fronteiras, consolidando-o como uma referência incontornável para análises socioeconômicas no Brasil e globalmente, mesmo 23 anos após seu falecimento em 2001.

A relevância de seu pensamento é vivida diariamente em diversos contextos, como evidenciado por estudos atuais. Em São Luís, no Maranhão, a professora Livia Cangiano, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo (USP) e colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), recorreu às formulações de Santos da década de 1970 para decifrar a complexa relação entre os grandes supermercados e os mercadinhos e feiras populares. Essa paisagem urbana revela um contraste agudo nos modos de consumo e acesso, espelhando dinâmicas de exclusão e a persistência de profundas desigualdades na cidade.

Os Dois Circuitos da Economia Urbana: Uma Lente para a Desigualdade

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A teoria central que Livia Cangiano emprega é a da divisão da economia urbana em dois circuitos distintos: o superior e o inferior. O primeiro é caracterizado pela concentração de grandes empresas, intenso uso de tecnologia, capital elevado e alta organização, dominando setores estratégicos do mercado. Em contrapartida, o circuito inferior é composto por pequenos comércios e serviços, com acesso limitado a recursos, mas que se destaca por sua notável capacidade de adaptação às necessidades específicas e restrições financeiras da população.

Livia Cangiano ressalta a importância vital do circuito inferior para moradores da periferia, que frequentemente enfrentam dificuldades de deslocamento até os centros comerciais. Nesses locais, as populações organizam seus próprios comércios – quitandas, mercadinhos e pequenas lojas – oferecendo soluções flexíveis. Um exemplo eloquente é a prática de vender itens avulsos, como um único ovo, em vez da dúzia completa, uma realidade impensável em grandes redes supermercadistas, demonstrando como a economia popular se molda à realidade de quem possui poucos recursos.

A Abrangência Global de um Pensamento Crítico

A acuidade das formulações de Milton Santos ultrapassa as fronteiras brasileiras. O projeto de pesquisa do qual Livia Cangiano faz parte exemplifica essa universalidade, aplicando as ideias do geógrafo para analisar as dinâmicas urbanas em diferentes continentes, incluindo Gana, na África, e metrópoles europeias como Londres e Paris. Isso sublinha como sua teoria oferece uma estrutura robusta para compreender a complexidade das desigualdades e a organização do espaço em contextos culturais e econômicos variados.

Espaço Geográfico: Um Reflexo de Decisões Políticas e Econômicas

Para Milton Santos, o espaço não é um mero cenário passivo onde a vida se desenrola, mas sim o produto direto de intrincadas decisões políticas e econômicas. Essa perspectiva inovadora propõe que a forma como as cidades se estruturam – desde a distribuição de infraestrutura essencial como saneamento e transporte, até o acesso à internet – não é um acaso. Pelo contrário, resulta de escolhas deliberadas que, invariavelmente, privilegiam determinados grupos sociais e territórios em detrimento de outros, gerando uma segregação espacial que reflete e perpetua desigualdades sociais profundas. A ausência de serviços básicos em periferias e a valorização desmedida de outras áreas são manifestações dessa política do espaço.

Vencendo o Racismo e Inspirando Gerações: A Luta e o Legado de Milton Santos

Nascido em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, Bahia, Milton Santos trilhou um caminho acadêmico brilhante, concluindo seu bacharelado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutorado na Universidade de Strasbourg, na França. Contudo, sua trajetória foi marcada pelo exílio durante a ditadura militar, período em que lecionou em prestigiadas universidades na Europa, África e América Latina, antes de retornar ao Brasil para consolidar sua notável produção intelectual como professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de São Paulo (USP).

Como um intelectual negro, Milton Santos enfrentou o racismo estrutural inerente à academia e à sociedade, um desafio que moldou sua visão de mundo. Embora sua obra não tivesse a negritude ou a relação entre classe e raça como tema central explícito, sua teoria social crítica das desigualdades ofereceu e ainda oferece um arcabouço poderoso para a análise das questões raciais. Ele se tornou uma inspiração fundamental para outros intelectuais negros, como a geógrafa Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Catia Antonia da Silva relata a profunda influência de Santos em sua própria formação, não apenas no âmbito cognitivo e técnico, mas também na dimensão humana, em um período (década de 1980) em que a presença negra nas universidades era escassa. Ela destaca que Milton Santos nunca se esquivou de se posicionar publicamente contra o racismo, reconhecendo que, mesmo sendo um professor universitário, vivenciou experiências de discriminação. Ele enfatizava a necessidade de um esforço redobrado por parte dos negros para que seu trabalho alcançasse legitimidade, mas, ao mesmo tempo, jamais utilizou a vitimização como subterfúgio para sua ascensão intelectual, preferindo o rigor e a força de suas ideias.

Conclusão: A Contínua Luz de um Geógrafo Inovador

Ao completar 100 anos de seu nascimento, Milton Santos permanece como um farol no estudo do espaço geográfico, da urbanização e, sobretudo, das complexas tramas da desigualdade. Sua capacidade de articular economia, política e sociedade em uma visão holística e crítica redefiniu a geografia e continua a nos provocar a enxergar as cidades e o mundo não como dados, mas como construções sociais passíveis de transformação. O geógrafo baiano, com sua inteligência perspicaz e sua postura ética, deixou um legado imperecível que nos convida a uma reflexão constante sobre os mecanismos que criam e perpetuam as disparidades, inspirando novas gerações a buscar um mundo mais justo e equitativo.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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