Rede Nacional de Comunicação Pública Impulsiona Conteúdo Regional e Busca Modelo Descentralizado

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A busca por inovação e uma representação mais fiel da diversidade cultural brasileira marcou o recente encontro da Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP), no Rio de Janeiro. Em um cenário de transformações tecnológicas e crescente demanda por regionalização, emissoras públicas de todo o país estão unindo forças para redefinir seu papel, fortalecer parcerias e assegurar que as vozes locais alcancem um público mais amplo através da TV Brasil e Rádio MEC. A mobilização em torno de novas estratégias e o intercâmbio de experiências bem-sucedidas são pilares para a construção de um sistema de comunicação público mais robusto e inclusivo.

A 'Voz Dela': Um Exemplo de Inovação Regional

Um dos destaques apresentados no encontro da RNCP foi o reality show 'A Voz Dela', da PrefTV, a televisão pública de Caruaru, Pernambuco. O programa teve como objetivo inédito encontrar uma mulher para ser a locutora oficial do São João da cidade, uma das festas mais emblemáticas do Brasil, onde a presença feminina nessa função era historicamente ausente. Onze mulheres disputaram a chance, submetendo-se a testes de improvisação e conquistando o engajamento da população caruaruense.

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A jornalista Rebeca Nunes, apresentadora do reality, ressaltou a importância da iniciativa, que em sua segunda edição, em 2026, foi transmitida ao vivo. A proposta era empoderar mulheres, inclusive aquelas sem experiência prévia em comunicação, que demonstravam desenvoltura e o sonho de ocupar um palco de tamanha relevância, falando para milhares de pessoas. A iniciativa da PrefTV simboliza a capacidade das emissoras locais de gerar conteúdo original e de impacto social, reverberando questões de representatividade e inclusão em suas comunidades.

Ampliando a Presença Regional na Grade Nacional

Uma das principais reivindicações e propostas da RNCP, coordenada pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e composta majoritariamente por emissoras não comerciais, é a ampliação do tempo de exibição de produções regionais na TV Brasil e Rádio MEC. A possibilidade de veicular conteúdo local e culturalmente diverso é um dos maiores atrativos para a adesão de emissoras ao Sistema Público.

Welder Alves, Gerente de Rádio, Projetos Especiais e Mídias Digitais do Sistema Encontro das Águas (antiga TV Cultura do Amazonas), destacou que, ao integrar a RNCP, a TV Encontro das Águas já conseguiu exibir diversos programas e reportagens em rede nacional, como o Festival de Óperas e a cobertura da COP-30, realizada em 2025 no Pará. No entanto, o desejo por mais espaço é evidente. Atualmente, cálculos baseados em dados da EBC indicam que as produções das parceiras ocupam cerca de 11,3% da grade da TV Brasil entre 6h e meia-noite, um percentual que, embora relevante, ainda é visto como passível de expansão. Para planejar futuras estratégias de veiculação, a RNCP prevê discussões aprofundadas em câmaras temáticas após o encerramento do encontro.

Uma EBC Facilitadora em um Novo Cenário Tecnológico

A presidenta da EBC, Antonia Pellegrino, delineou um novo momento para a empresa e a rede pública, impulsionado por transformações tecnológicas como a chegada da TV 3.0, que integrará televisão e internet. Segundo Pellegrino, é crucial que todas as emissoras da rede estejam em patamar semelhante para enfrentar esses desafios. Ela enfatizou o conceito de que o campo público não deve ter hierarquias rígidas, cabendo a cada emissora desenvolver sua programação, criar seu conteúdo e sua linguagem, colocando-se lado a lado com as demais.

Corroborando essa visão, o diretor-geral da EBC, David Butter, afirmou que a rede não precisa se prender a modelos pré-estabelecidos, podendo construir soluções próprias. Ele ressaltou que o papel da EBC é ser uma facilitadora nas relações com as afiliadas, priorizando o compartilhamento de oportunidades e recursos, em vez de atuar como uma 'cabeça de rede' que apenas alimenta suas parceiras. Essa mudança de paradigma busca promover uma interação mais dinâmica e colaborativa.

A Busca por Parcerias Horizontais e o Brasil na Tela

O fortalecimento das parcerias conta com o apoio dos trabalhadores da EBC e da sociedade civil. Cibele Tenório, jornalista e integrante do Comitê de Participação, Diversidade e Inclusão da EBC, defendeu enfaticamente uma relação horizontal entre a EBC e suas afiliadas. Para ela, a rede pública não deve replicar o modelo das redes comerciais, mas sim garantir que a 'TV Brasil' realmente represente o Brasil em sua tela, exibindo os diversos sotaques e permitindo que as pessoas se reconheçam na programação.

Um exemplo prático dessa abordagem é o modelo adotado pela Rádio Educadora da Bahia, gerida pelo Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Iderb). A rádio realizou um edital afirmativo para contratar programas independentes focados em diversos gêneros musicais, como música baiana, africana, rap e trap. Esses conteúdos são então oferecidos gratuitamente para veiculação por outras emissoras que integram a RNCP, promovendo a troca de produções e a diversidade cultural sem custos adicionais para as parceiras.

A 'Carta do Rio': Consolidação das Demandas para o Futuro

Ao final do encontro, foi apresentado um rascunho da 'Carta do Rio', um documento que sintetiza as principais análises e reivindicações das afiliadas sobre o cenário atual da comunicação pública no país. Entre os pontos cruciais do documento, os gestores da rede reforçam o pedido pela repartição de recursos federais provenientes da Contribuição para o Fomento da Radiodifusão Pública (CFRP). Essa medida é vista como fundamental para garantir a sustentabilidade e a capacidade de investimento das emissoras públicas em todo o território nacional, permitindo-lhes desenvolver ainda mais conteúdos de qualidade e relevância local.

Perspectivas para 2026 e Além

Com a previsão de expansão histórica da comunicação pública até 2026 e a necessidade de se adaptar a tecnologias como a TV 3.0, a Rede Nacional de Comunicação Pública se posiciona como um agente transformador. O compromisso de subverter hierarquias, fomentar a produção regional e democratizar o acesso à mídia reflete um movimento em direção a um sistema que não apenas informa, mas também representa e empodera as diversas vozes do Brasil, garantindo que o público se veja e se ouça na sua própria televisão e rádio.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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